Sim, porque lá existe um negócio chamado minibus taxi que nada mais é do que um veículo um pouco maior que uma van, geralmente de fabricação chinesa (eles já estão tomando conta da Äfrica também), com capacidade para ou 16 ou 22 pessoas, mas que geralmente vão 29, 33, 35 pessoas.
Para ir de Johannesburg a Maseru, a capital do Lesotho, uns 500 km ao norte, paga-se o equivalente a 20 reais. Aí eu quero ver o turista brasileiro falar: 'nós queremos conhecer o modo de vida do povo africano'.
Eu passei três dos meus 23 dias na África a bordo de um veículo pelas estradas de South Africa e Moçambique e nunca vivi tantas emoções sob o asfalto.
As estradas são boas, os ônibus turísticos (não me arrisquei num minibus taxi) são novos, a passagem é relativamente barata (R$ 60 reais para ir a Moçambique, de Pretória, não é tão caro, né?). Mas o que acontece no intervalo entre o embarque e o desembarque, meu amigo, é 'uma tsunami' de dissabores.
Eu poderia fazer um post para cada uma das jornadas que encarei bravamente, mas vou tentar resumir apenas uma delas aqui.
Bueno, certo dia acordei às 6h, horário oficial de Pretória, a capital de todos o sulafricanos, para estar no rodox às 7h e embarcar às 7h15 para a nossa Moçambique. São 600km ou um pouquinho menos, que o panfleto de propaganda garante serem percorridos em sete horas (ou menos!).
Havia combinado com Godfrey, o taxista, para me buscar no hostel às 6h30 e chegar na rodoviária por volta de 7h, em tempo de embarcar. O que eu nao contava era com o African Time.
African time é o tempo da África, seus atrasos gigantescos perdoados por nada, sequer questionados. Brasileiro tem fama de ser atrasado, mas na África é que o bicho pega. Tirando horário de aeroporto e programação de TV, tudo atrasa.
Godfrey chegou somente às 6h45. No problem, boss, disse-me...Voamos pelas ruas largas e retas de Pretória. Chegamos em cima da hora na rodô (na foto abaixo).
Acontece que o African Time não valeu para o motorista da Intercape, companhia que escolhi para me levar até Maputo. O motorista simplesmente me impediu de embarcar porque eu não tinha o vista de entrada em território moçambicano.
Ora, se na fronteira eu consigo o visto por 170 rands (42 reais) e na embaixada, com antecedência, o mesmo documento custa o equivalente a R$ 172, é claro que eu preferia tirar na fronteira. E o vendedor do bilhete havia me garantido que o ônibus me esperaria tirar o visto na fronteira.
Faltou combinar com o motorista, que era branco. Aos gritos, me tirou da fila de embarque, tirou a etiqueta do meu mochilão e a jogou no chão, como quem joga um porco morto num terreno baldio.
Pedi para que ficasse calmo, mas ele estava irredutivel. "Tenho um determinado prazo para permanecer na fronteira. Não quero me atrasar lá por sua causa", justificou, esquecendo-se do african time.
Fui socorrido por passageiros de outras companhias que me viram desolado. Foram eles que me explicaram a tática: comprar uma passagem para Koomatiport, última cidade em terreno sulafricano antes de adentrar Moçambique. Para todos os efeitos, eu ficaria em Koomatiport, mas se desse tempo, o imbecil do motorista me deixaria seguir até Maputo.
Paguei 25 rands pela passagem a Koomatiport, mais 15 rands ao guardinha que me acompanhou até o guichê e 10 rands ao outro que evitou que o ônibus partisse sem mim.
Com o passar das horas e de muitas paisagens, Milton, o rodomoço moçambicano, me informou que se eu quisesse ir para Maputo, teria de ser o homem mais rápido da fronteira:
"Carimba a saída na África do Sul, paga o visto na entrada de Moçambique e corre pro ônibus", avisou-me Milton.
Perto da fronteira há um grande e bonito rio, que gostaria de tomar umas fotos, mas não tive cabeça para pensar em fotos. Só pensava na correria e na possibilidade de ficar na fronteira e minha mala ir para Maputo sem mim.
Tinha que preencher um formulário repetitivo e eu não tinha caneta. Do chão, assim, do nada, de um lugar de onde ninguém sabe, surgiu um velhote, com cara de pagodeiro, me oferecendo (em português - moçambique fala portuga, para quem faltou aula de geografia/história) uma caneta e agilização no visto.
Na hora de colocar o dinheiro na minha mão, fez um sinal, apontando para Nêgo Almeida e embolsou a grana. Era como se estivesse dizendo que meu visto só saira mais rápido porque eu pagara aqueles 28 rands (mais os 20 rands iniciais, que havia me pedido educadamente) a mais por um serviço de qualidade.
Um minuto antes do motorista branquelo seguir viagem para Maputo entrei no ônibus com meu visto moçambicano
Entrei no ônibus esbaforido, encharcado de suor e passando mal de calor. Quando a porta se fechou e o motor engrenou pela estarda recém-construída por uma empreiteira chinesa, me acomodei em uma fileira folgada e saí do lado da moçambicana Emilia.
Era hora do almoço para os passageiros, apesar de ja estarmos para lá das 14h. Duas senhoras ao meu lado sacaram a quentinha de isopor da bolsa e abriram a tampa.
O banheiro estava interditado, porque algum engraçadinho havia deixado dois feixes de mogno entalados no bojo, não havia sacos plásticos em minha volta. Teria de passar pelo constragimento de regurgitar na própria mão, ou dentro do saco usado de batata chips. Ou apelar pela compaixão do motorista imbecil para que parasse para eu devolver meu hamburguer em forma líquida.
Mas...por algum motivo que jamais conseguirei explicar, me retirei daquele recinto.
Eu estava ali, sentado, trôpego, mas, no fundo, não estava. Por umas boas duas horas, eu simplesmente esqueci que estava naquele ambiente insalubre. Não sei se foi Gay Talese que eu estava lendo, ou Yardbirds que estava ouvindo, só sei que não estava realmente ali. Quando dei por mim, havia chegado em Maputo. Exatamente 12 horas depois de me acordar, em Pretória.
******
Isso é porque eu não contei como foi minha ida para Inhambane e meu retorno para Johannesburg. Fica para um próximo capítulo.