terça-feira, 29 de abril de 2008

Eterno Déjà Vu

Não tem quem não vá a Trindade, talvez a última praia no litoral sul do Rio de Janeiro, e não a compare com Pipa-RN. Muito menor, claro, muito mais verde (está rodeada por uma reserva ecológica de Mata Atlântica), muita queimação e muito ratatá. Menos grana circulando, muito menos gringos e gringas, sem novos ricos ostentadores em pousadinhas elegantemente bagunçadas....

Estive lá num feriado desses que rolou recentemente e fiquei decepcionado comigo mesmo. Não foi por causa do mergulho espetacular do meu celular dentro do mar, mas sim pela minha falta de imaginação.

Tudo bem que Pipa e Trindade são parecidas, mas me toquei que, para todos os lugares que vou, faço comparações com outros que já estive/conheço.

Trindade também parece com Itacaré.

É tudo assim. Um lugar se parece com o outro.

Sevilha é uma espécie de Florença dos espanhóis. Quando na verdade, elas não têm nadas a ver uma com a outra. Mas instituí esse parâmetro na mente e andei pela Itália pensando na Espanha...

No caminho para Trindade, por exemplo, passei por uma rodovia arborizada e me lembrei de uma estrada que percorri com minha família em 1999, na distante Luxemburgo. Por sinal, ao entrar na cidade, tive a impressão de estar chegando ao final da L2 Norte, ali perto do Parque Olhos D'Água.

O f*da de Luxemburgo é que nós passamos apenas 15 minutos lá. Foi o tempo de comprar uma camisa da Seleção de Portugal e pegar um hamburguer do McDonald's para viagem. Já foi o suficiente para minha irmã dizer por aí que conhece Luxemburgo de uma ponta aa outra.

Bom, mas comigo é tudo meio simplista mesmo.

Ah, por exemplo...escrevi, mais pra trás, que todas as cidades se pareciam com Campina Grande.

Talvez seja resquício do trabalho. Como repórter de esportes, volta e meia tô fazendo matéria comparando perfomances ou fazendo paralelos a fatos passados.

Sem querer transferir a responsabilidade, eu assumo que sou um dos caras menos criativos do mundo.

Quando li Cem Anos de Solidão, imaginava que Macondo era a República Independente de Livramento, terra do meu pai e de metade da minha família, no planalto da Borborema.

Eu não tenho a capacidade de assimilar que cada lugar é único. Pode ter um traço ou outro que eu já conheça, mas as características, as circunstâncias, o contexto são diferentes e muitas vezes me passam despercebido. Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.

Mesmo assim, eu fico preso neste eterno Déjà vu.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Minha mãe tem razão

Segunda a minha mãe, eu ando sem inspiração....

Ela realmente acredita no que eu escrevo aqui e vê inspiração nisso tudo. Brigadão, mãe!
Mãe é mãe, né, sabe como é.

Tudo bem que os dois últimos temas tratados aqui vão na direção oposta à opinião dela. Afinal, onde já se viu escrever sobre suvaco e ainda assumir que não quer malhar e vai deixar as coronárias se entupirem por causa de Gay Talese?

Mas ela está certa mesmo.

Por mais que eu passe o dia inteiro bolando textos na cabeça, arquitetando opiniões/informações de forma hierarquica na mente para derramá-las aqui, confesso que desde que cheguei em SP não me tem ocorrido as melhores idéias.

Enquanto eu tinha a visão de um turista sobre a cidade, estava tudo legal. Falar das caminhadas sem sentido, das ruas com nomes idem, do sotaque dos paulistanos...tudo isso foi mais ou menos como um diário de viagem.

Mas quando a realidade se mostrou de fato, meu amigo...Eu fiquei "meio assim".

É, porque têm rolado várias coisas comigo aqui que renderiam milhões de gigabytes para transcrevê-las. Algumas valem a pena relatar, outras, nem tanto.

Afinal, não sei quem exatamente lê este blog além das pessoas que comentam.
(A propósito, por onde anda Paula Barros. Paulinho, tem notícia?)

Para um cara como eu que sempre gostei de seguir de maneira ortodoxa meu planejamento para vida, a mudança da rota para São Paulo tem gerado fatos novos, sensações estranhas, sentimentos inesperados, reações sem explicação.

É como se eu não tivesse o total controle do meu destino. Como se a qualquer momento o estalo da sorte (ou da falta dela) soasse para me deixar perdido (ou não!)

Por isso mesmo fico sem saber onde pôr as mãos na hora de escrever alguma coisa nova. Daí parto para a cultura inútil: suvaco, leitura x malhação, futebol...

Estava começando a ficar preocupado, mas em conversa com dois amigos e até mesmo com Ana Paula descobri que não é pecado sentir-se atordoado com a mudança.

Veja o caso de dois ex-companheiros de trabalho.

Um me revelou que demorou nove meses até escrever algo realmente interessante depois de desembarcar na cidade. O outro, tão estranho quanto eu por aqui, não consegue nem ler jornal de tantas informações novas acumuladas a cada jornada de trabalho.

Ana Paula, por sua vez, ficou quatro meses sem se alimentar direito por causa do banzo/estranhamento.

Admiro minha "companheira de trabalho" Ana Clara. Ela, não só, devorou uns cinco ou seis livros de Kerouac e Bukowski, como também, passou a atualizar quase que diariamente o blog dela. (E comentar naqueles que comentam no dela.)
Essa sabe render em situações adversas.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Ler ou malhar

Este ano tem tudo para eu bater o recorde de vezes que joguei bola em relação aos últimos quatro ou cinco anos.

Arrumei um futebolzinho bem legal às segundas com os pernas-de-pau marrentos do trabalho que está, pelo menos, um nível abaixo do que costumo apresentar fora de forma. Veja bem, eu disse f-o-r-a d-e f-o-r-m-a.

Se eu estivesse no auge da minha forma física, com uns 10 quilinhos a menos, lépido e fasceiro, o futebolzinho da segunda-feira seria até sem graça. Mas, tá legal, tá ótimo. É até melhor que esteja longe de meu pontecial atlético. Para você ver como os caras são ruins de bola.

Cheguei aa conclusão que levo essa vida de atleta-de-um-dia-só porque adquiri o excelente hábito de ler. Sim, a leitura ocupa o tempo que eu estaria malhando, por exemplo. Dia desses pensei em comprar um video-game, mas desconfiei que esse, por sua vez, tomaria o espaço da leitura e aí eu seria um gordo, careca, branquelo, sedentário e ainda mais viciado em Winnig Eleven.

Descobri, também, que o horário ideal para fazer esforço físico é à tarde. Depois de 15h30 eu tô até disposto a correr, malhar, jogar bola, puxar um pouquinho de ferro. Esse não é o horário para ler, horário de parar de me agitar e analisar uma opinião conflitante na página 2 do jornal, e otras cositas a mas.

Aliás, dia desses sugeri à namorada de um amigo que costuma freqüentar silenciosamente este blog que é impossível malhar e manter o hábito de ler, somado a isso, tomei uma cerva bruta com ele, de chegar às 4h da manhã, e ela, poxa, está ressabiada comigo.
(Caraca, ressabiada é feio, hein!)
Por isso não citei o nome dele aqui agora.

Bom, voltando à questão do horário, de manhã, o único tempo livre que tenho, eu fico lendo jornais. À noite, quando não tomo cervejas, tô aqui na internet atualizando blogs, procurando algum sebo virtual que tenha A Luta, de Normam Mailer, pesquisando preços de passagens aéreas para Campina Grande, lendo jornais ingleses ou americanos.

Na segunda, tem futebol. O f*da de jogar à noite, também, é que eu volto para casa com 15 mil rotações por minuto na cabeça, pensando no jogo, no lance, na bola na trave, no pênalti não marcado e só vou dormir quase três horas depois.

A mim, portanto, só resta usufruir deste futebolzinho baixo nível da segunda e ser convidado para outros igualmente familiar à noite, quem sabe até um pouquinho mais cedo, porque não tô disposto a largar a leitura pela manhã.

Aliás, logo agora que, seguindo a recomendação de Mr. Rabbit, comecei a ler a Mulher do Próximo, de Gay Talese, e já devorei quase 50 páginas em um dia.

Mas isso é assunto para outro post...e eu ainda tô devendo um texto (a mim mesmo) sobre o "estilo brasileiro de São Paulo".

terça-feira, 8 de abril de 2008

Nicotina para suvaco

Parece besteira, mas alguém já parou para estudar o cartel da indústria de desodorantes?

Sim, de desodorantes mesmo. Rexona, Axe, Brut 33, Tred Marchand, e todas aquelas marcas com nomes diferentes...Na verdade, nomes que não tem nada a ver.

Só quem passa pelo constrangimento silencioso que eu enfrento quase que diariamente será capaz de compreender este post.

Eu não compro perfumes. Tenho um de vidro azulzinho que comprei em 2003, no Canadá, mas nunca uso. N-U-N-C-A uso. Tá, tudo bem. No casamento de Brunão, em janeiro de 2007 eu usei.
Por mim, meu cheiro seria natural, mas sou obrigado a "me banhar" de desodorante. No meu banheiro, tenho quatro ou cinco marcas na prateleira, mais dois na mochila que carrego comigo no trabalho.

Minhas glândulas sudoríparas têm uma leve disfunção somente debaixo do braço e me tornam um viciado nessa nicotina para o suvaco. Algumas das minhas camisas, inclusive, já estão maculadas por esta chaga mal-cheirosa.

Cheiro, portanto, a produtos químicos aromatizados artificialmente que amenizam a vergonha. Mas se não usar o desodorante, torno-me uma pessoa involuntariamente impossível de conversar de perto com alguém. Qualquer pessoa.

Fico imaginando se minha mãe nunca tivesse me apresentado ao desodô. Sim, porque talvez meu suvaco jamais seria tão dependente deles como hoje.

Diante de toda essa auto-exposição ao rídiculo, deixo aqui registrado meu manifesto contra a inclusão de umas gotinhas de produtos viciantes nos frascos que impossibilitam a sobrevivência de um suvaco sem desodorante pelo resto da vida...

sábado, 5 de abril de 2008

Complexo de Campina Grande

Depois que morei em Campina Grande (1999-2002), fiquei com a impressão de que todos as cidades que visito que não têm praia são cópias da Rainha da Borborema.

Hoje, por exemplo, estou em Goiânia, a trabalho e depois de umas boas caminhadas pela Av. Anhangüera e outras de nome indígena, tive, mais uma vez, a impressão que a capital goiana se parece com a pequenina e heróica.

Ruas apertadas; muita gente disputando espaço nas calçadas; muito comércio informal e/ou familiar; congestionamento de carros de som com aspirantes a locutor de circo anunciando promoção de tecidos; paixão estridente pelo futebol local; bairros residenciais a duas esquinas do centro da cidade.

Tive essa mesma imagem quando fui a Joinville, Araraquara, Londrina, Franca, Anápolis, Ribeirão Preto. (Em algumas dessas cidades não tem futebol local...)

Brasília não conta.

São Paulo tem vários traços de Campina Grande, principalmente numa rua chamada 12 de outubro, na Lapa. Um motorista do trabalho ainda me fez o seguinte comentário:

- Essa rua aqui é maior bagunça. Também, né, só tem nordestino aqui!

Preconceito à parte, talvez essa seja a versão mais legítima das cidades brasileiras. Sobre isso (o estilo brasileiro), vou escrever mais para frente. Daqui dois posts, para ser mais preciso!

Ah, em Goiânia, existe, sim, ruas com nome de números, mas segundo o taxista Wescley (goiano adora nomes 'gringos'), elas não obedecem ordem alguma. A Rua 21 corta a Rua 4, que, por sua vez, segue pela 23 e vai parar na 3... Os bairros recebem o nome de Setor (Bueno, Oeste, Marista). A quantidade de mulher é visivelmente superior aa de homens por aqui. Elas também se destacam pela qualidade, com todo respeito...

Mais duas características marcantes percebi neste pouco tempo em Goiânia.

1 - Não há mais do que 100 placas informativas espalhadas pelas principais vias da cidade. Os próprios taxistas reconhecem que Goiânia é a cidade com o menor número de informações públicas - aquelas placas verdes localizada, geralmente, nos cruzamentos para informar que o Bairro tal fica aa direita, o Centro, em frente, e assim sucessivamente!

2 - Os goianos são magros de ruim. Não me refiro à sempre criativa e pitoresca culinária local, mas aa maneira de falar dos moradores. Eles engolem letras e sílabas e formam onomatopéias compreensíveis. Num bate-papo com um taxista sobre a terrível história da menina de 12 anos torturada por uma empresária, o camarada soltou essa:

- Nú...corroró, cávi!

Traduzindo:
- Nossa...Que coisa horrorosa. Nunca vi!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Abegoária, Aspicuelta, Apinajés...

Não é uma característica apenas dos paulistas/paulistanos. Quem nasceu e cresceu em cidades cujas ruas têm nomes (aproximadamente 187 milhões de brasileiros) também tem essa qualidade.

Você bate um papo tranqüilo com uma pessoa quando ela te conta uma história que tem:

- ...de repente, quando dobramos na Aspicuelta, tava maior trânsito e decidimos voltar pela Abegoária mesmo!

Os moradores têm na cabeça o nome de quase todas as ruas da cidade, suas travessas, cruzamentos, paralelas e em que ponto elas mudam de nome.

Eu, (repetindo) sou paraibano, mas por 15 anos morei em Brasília, por isso minhas referências geográficas em uma cidade são na base de números. Mais ou menos assim:

- Tem uma pizzaria Dom Bosco na 108 Sul e outra na 306 Norte.

Ponto final. Vai andando pela Asa Norte. Ela começa na 2, depois vem a 3, a 4, a 5 e a 6. Sobe no Eixinho por uma entrequadra e faz o balãozinho para a direita. Acabou. Parece difícil, mas é uma questão de lógica. Não tem mistério. Vai lá em Brasília para ver.

Acho que só Ituiutaba e Palmas, a terra do meu amigo Samcrer, tem endereços assim, baseado em números. Aliás, acho que em Ituiutaba eles quiseram imitar Nova Iorque, porque lá é tudo Quinta Avenida, Terceira Rua... Já Palmas, é uma versão desorganizada de Brasília.

Quando morei em João Pessoa, minha casa ficava na Rua Rui Costa, número 560. Para explicar a algum visitante como chegar lá não bastava dar o endereço, tinha que passar um mapa:

- Na subida do Altiplano, vire aa direita na antiga Palavolo. Conte seis entradas à direita, minha casa fica na sétima, em frente a uma pracinha, antes do conjunto.

Sacou?
Acho que nem eu consigo mais chegar lá desse jeito.

Nessas cidades com ruas nominais, muitas vezes as referências são coisas velhas:

- Sabe onde ficava o antigo Sesc? Então, hoje funciona uma igreja lá, passa na frente dela. Aí você vai ver uma quadra de futebol abandonada, onde era a escola estadual, quebra aa esquerda e conta dezenove travessas até fazer o retorno em frente ao antigo Bar da Fava...

Os críticos ainda dizem que Brasília é fria e impessoal por causa dos números. Bom, mas no final das contas, quem mora em ruas com nome, tem que se ligar nos números. Na rua em que meus pais moram em Recife, é preciso informar em qual região fica o prédio porque a avenida tem uns sete quilômetros. Eles moram no prédio de número 27.000.

Bom, só para justificar o título deste post:

Apinajés uma ruinha paralela à de onde moro onde as próprias placas se confundem. Numa esquina é ApinaGés, na outra ApinaJés. Abegoária é a rua que se pega para chegar à Aspicuelta, na Vila Madalena. Os melhores bares de São Paulo, até onde vi nesse primeiro mês de morada, ficam na Aspicuelta.

É um nome legal, não é não: Aspicuelta, Aspicuelta, Aspicuelta.

Ah, é lá que fica o São Cristóvão, bar temático sobre relíquias de futebol. Se eu fosse rico abriria um igualzinho a ele em Campina Grande, só sobre Treze e Campinense...