Perdi quase que uma manhã inteira procurando o livro de Kapuscinsky pela casa.
Como é irritante revirar a casa e não encontrar. Nessas horas eu só consigo pensar no dia em que o google sairá do computador e poderá ser aplicado na vida real.
Tão irritante quanto é interromper a leitura por desleixo.
Havia engrenado em A Guerra do Futebol, de Kapuscinsky. Tava lendo em todo lugar, no banheiro, no trabalho, no saculejar do ônibus, no elevador, na calçada da Pompéia...Tava indo bem.
Eis que o livro some.
Putz, eu estava com ele na mão há 12 horas, como posso ter perdido?, pensei.
Minha casa, como se sabe, não é lá exemplo de organização, ainda mais agora que minha irmã tá indo embora e não vai ter ninguém para lavar a louça.
Revirei montanhas de produtos de higiene no banheiro, desbravei pilhas de roupas sujas espalhadas pela área de serviço, lençois (com acento?) e ededrones esparramados pelo chão, trincheiras de roupas limpas que estavam havia dias na sala foram remexidas, virei ao avesso a casinha de Catôta e Remela...e nada do livro.
Desci pelo elevador para ver se não havia deixado cair no chão, refiz o caminho da noite anterior e concluí: ficou na porra do ônibus. Mas que merda!!!!
Me conformei com a situação e peguei um livreto de bolso do Milton Hatoum para matar o tempo no ônibus. De repente, não mais que de repente, me lembrei: no p-o-s-t-o de gasolina.
Sim, claro, no posto. Eu passei por lá na noite anterior para comprar pilha e devo ter esquecido o livro do Kapuscinsky em cima da bancada. Mas eu já estava a caminho do trabalho, tinha que torcer para que alguma alma bondosa guardasse o livro para mim.
Vinte quatro horas depois de esquecer o livro no posto, voltei lá para recuperá-lo. A Guerra do Futebol estava ali, do lado da caixa resgistradora, tranquilamente, à minha espera.
- Da licença, acho que esqueci um livro aqui ontem?
- Ah, sim, estava em cima das prateleiras das pilhas. Toma...
A sorte foi que eu perdi um livro. Historicamente, ninguém rouba livros, ou como se dizia antigamente em Brasília, ninguém lala (verbo transitivo direto, ato ou efeito de levar para casa alguma coisa esquecida em qualquer lugar) livros.
Fazer o que com um livro?
Me diz, fazer o que????
Nada!
Agora, se fosse qualquer coisa - nao duvidando da pobre da mulher do posto, mas dos clientes espertalhões - , dificilmente recuperaria o que perdi. Nem se fosse um guarda-chuva...
O artilheiro de sangue azul
3 horas atrás