Um magrinho, branquelinho, bigode e olhos claros, de jeito tímido mas de fala acelerada ganhou de herança uma porção generosa de caatinga no sertão da Paraíba e resolveu criar um sítio.O nome do novo dono daquelas terras era Avelino Patrício de Araújo. Esse senhorzinho aí da foto ao lado é ninguém menos que meu tataravô.
Para quem, assim como eu, se perde nesses graus de parentescos, ele foi avô da minha avó. Longe, né?
Pois é, ele viveu até o começo do século passado no sítio herdado do pai. O local recebeu o nome de Carneiro.
Mais longe que o grau de parentesco - fiquei sabendo neste final de semana que passou que eu tive um tataravô - é o lugar onde minha família surgiu.
Carneiro é no meio do nada, entre umas serras pequenas, numa faixa de terra que muita gente chama de sertão, mas que é capaz de fazer florescer, em tempos de chuva, belas árvores frutíferas como siriguela, goiaba, jaca, banana, melancia, acerola, laranja, pinha...
Pena que chove pouco.
O velho Avelino fundou, portanto, em 1826 o sítio Carneiro. Em linha reta, da capital da Paraíba, João Pessoa, devemos chegar a uns 300
quilômetros de distância da porteira do Carneiro até a Ponta do Seixas, autodenominado 'o ponto mais oriental das Américas'.
Bueno, mas distância é muito maior, porque não existe linha reta no sertão. Até hoje não chegou calçamento de pedra no Carneiro. O que faz qualquer viagem demorar mais de quatro horas de saculejo dentro do carro.
O velhinho teve um filho chamado Agostinho Patrício, que era inventor. Inventava tanto que teve 16 filhos e colocou em 15, nomes iniciados com Aga: Aganilce, Agapio, Agamenom, Agassis, Agaba, Agarlete, Agadir, Aga...Bom, num desses h estava minha avô materna, Agarina.
Esta é uma parte da história da família Brito na Paraíba.
Agarina morou aí no Carneiro até os 14 ou 16 anos, quando se mudou para Recife com meu avô, Antônio. Foi na capital pernambucana que minha mãe nasceu. O histórico familiar de Antônio é quase idêntica ao de sua esposa, Agarina, só muda o sobrenome (Almeida). As terras da família dele taambém eram por aí.
Perto de Carneiro, tipo uns 30 quilômetros em linha reta, existia um outro sítio chamado Cipó, na cidade de São José dos Cordeiros. Dali saiu a esposa de Seu Agostinho, D. Ana. Aí entra a segunda parte da família Brito.
Agora começa a confusão: D. Ana é irmã de D. Evani, mãe do meu pai. Que é Brito.
Minha mãe, por sua vez, é Brito, mas é principalmente Almeida. Meu pai, portanto, não é Almeida. Só Brito.
Minha mãe, por sua vez, é Brito, mas é principalmente Almeida. Meu pai, portanto, não é Almeida. Só Brito.
Ou seja, a avó da minha mãe é tia de primeiro grau do meu pai. A minha avó por parte de pai é sogra e tia da minha mãe. E minha avó materna era prima e sogra do meu pai. Portanto, avó e prima de terceiro grau de minha pessoa. Mas eu me acostumei a chamá-la de vovó. Enquanto pude...
Tem mais coisa em comum. Tá vendo essa cidadezinha aí, abaixo?
Essa cidade é Livramento. Ela recebeu este nome, entre outras muitas lendas, por causa do rio que passa no Carneiro e tem o nome de Livramento. Não é mais um rio. É um monte de galho seco e areia e terra rachada por causa da seca.
A cidade foi fundada há quase um século por um senhor cujo sobrenome era Brito (aí já é um terceiro departamento da família). Livramento só virou cidade uns 40 anos atrás, até então era uma vila do município de Taperoá, terra de Ariano Suassuna. Carneiro pertence ao município de Livramento.

Apesar de, ainda pequenos, minha mãe morar em Recife, meu pai, em João Pessoa, eles se conheceram, 35 anos atrás em...Livramento. Foi em Livramento que meu pai nasceu, há mais de cinco décadas. Foi exatamente nesta casinha aí, ao lado, onde hoje funciona algum órgão da prefeitura ligado ao governo federal. Nada mais justo para a história deste post que o local tenha escrito na fachada 'Casa da Família'.
Com menos de 10 mil habitantes, ainda hoje é difícil chegar a Livramento. É preciso enfrentar dez quilômetros de estrada de terra, depois de 200 e cassetada de BR-230 e PB-216, para conhecer esse lugar cheio de história (pelo menos para mim).
Celular não pega; só a Globo e a Record podem ser sintonizadas nas tevês sem parabólica; não há faculdades, livrarias, teatro, cinema ou museu; as ruas tem os nomes dos meus parentes; o estádio de futebol não tem grama, mas foi batizado com o nome de Almeidinha; existem 58 bares na cidade e o povo não tem o hábito de beber cerveja, só cachaça, e por aí vai...
Não faltam motivos para os bisnetos e tataranetos de Seu Avelino se afastarem ainda mais de Livramento e deixá-la ali, naquele cantinho do agreste da Paraíba.
Mas depois de um golpe do destino, a quarta geração de Seu Avelino volta a prestar atenção em Livramento.
Meu avô Antonio foi eleito vice-prefeito de Livramento. A chapa favorita foi desfeita pelo TRE e, faltando duas semanas para a votação, os correligionários colocaram meu avô na condição de vice no lugar dessa tal chapa impedida pela Justiça.
Sem ter feito campanha, nem gasto um tostão furado, a chapa dele foi a mais votada e ele está lá hoje.
No lugar com maior concentração de almeida e brito por metro quadrado chega até a ser justo chamar o município (e aí a gente inclui o Carneiro, de Seu Avelino) como a República Independente de Livramento (de Almeida Brito).
