segunda-feira, 20 de abril de 2009

Brasília, 49

Quem teve mega-drive se lembra. Toejam & Earl era um joguinho muito maluco em que dois personagens ficavam andando pelo mundo deles, que tem de tudo. Tenho a impressão que não existia final (ou zeramento, como se dizia) para o jogo.

A meta era sair pelo mundo recolhendo coisas, conhecendo mais o mundo, comendo coisas e assim ia.

Coincidiu com a época no colégio que eu estava aprendendo sobre Brasília. Cara, isso deve fazer uns 20 anos.

A idéia de Lúcio Costa das áreas residenciais, um lago artificial, os prédios cheios de pilastras para as pessoas circularem, as avenidas rápidas e em linha reta (ou em linha reta e, portanto, rápidas)...

Daí veio na minha cabeça que Brasília era como o mundo de Teojam & Earl, praticamente uma cidade de brinquedo, de mentira, que só existe no mundo irreal. Acho que foi nessa época que parei para pensar que eu realmente gostava de Brasília. E ainda gosto.

Eu fiz as contas, por uns oito ou nove dias no ano, em Brasília, que o ar fica leve. A seca tá começando, ainda não faz o nariz dos recém-chegados sangrar, mas já arranha a garganta. O sol parece que deixa de ser uma bola e se transforma numa luz difusa que ilumina por igual todos os espaços da cidade, o azul mais claro que pode existir é a cor do céu. Uma brisa refrescante que dá sempre a impressão de que são 7h30. Não faz calor nem frio.

Esses dias me vêm à cabeça quando conheço alguém que é ou morou em Brasília. Costumo simpatizar imediatamente com a pessoa. Pelo menos por 15 minutos, que é o tempo que levo puxando papo sobre a cidade.

Quando Brasília fez 30 anos o Correio Braziliense iniciou a série 'há 30 anos, em Brasília'. Eu me lembro do dia 21 de abril de 1990, o dia dos 30 anos. Estava exatamente do jeito que descrevi. Abri o jornal e vi essa sessão. Até hoje quando tenho o jornal em mãos paro para ler esse espaço.

Até hoje penso em Brasília como 30 anos atrás.

É muito louco porque tenho zero % de espírito empreendedorista mas fico fascinado com a idéia de construir uma cidade inteira, planejar as áreas todas, traçar avenidas e espaços verdes para a eternidade. Quase como os egípcios fizeram.

Não por acaso, existem semelhanças entre Brasília e uma cidade perdida no Egito chamada Akhenaton. Um faraó mandou construir uma cidade em formato de pássaro voltado para o oeste, no qual as pessoas morariam na regiao compreendida como as asas e o governo ficaria situado no corpo do pássaro. Vi há muitos anos uma entrevista na TV com um especialista em pirâmides que disse que existia até uma coincidência na posiçao geográfica de duas pirâmides de Brasília e de Akhenaton: uma seria o Teatro Nacional e a outra a 'pirâmide' da CEB, no começo da L2 Norte.

Morri de procurar no Google referências sobre essa informação e nunca consegui confirmá-la. É bem provável que sonhei, então, com essa história maluca.

As quadras arborizadas, infinidade de espaços para cultura, a convivência tranquila entre pessoas dos mais diversos lugares do Brasil. Isso me encanta em Brasília. Nesse último aspecto, acho Brasília muito mais descolada que São Paulo, que se acha na obrigação de arrotar que é o motor da economia do país e f*da-se o resto do país, que vive às custas dos esforços dos que moram aqui. Como se só vivessem paulistas-puro-sangue aqui, não é verdade?

O que me deixa triste...quer dizer, triste, não. Apreensivo...é, pode ser, apreensivo, é o fato de Brasília ter um prazo de validade.

Eu acho que a cidade tem um prazo de validade. Ora, Brasília está se transformando numa bomba-relógio. Com o inchaço de São Paulo e do Rio de Janeiro, o DF virou opção de refúgio em busca de uma vida melhor. Mas a maioria das pessoas que desembocam no quadrilátero federativo não tem qualificação para fazer valer a mudança.

O apartheid do Plano Piloto, Lago Sul e Norte, e Sudoeste faz muito mal. Talvez tenha sido uma coisa que Lúcio Costa planejou errado. Os ricos para cá, os pobres fudidaços para lá, para bem longe.

Pesa negativamente também a atuação de governos oportunistas, de gente com três dedos de profundidade para organizar e comandar uma cidade tão importante (por ser a capital do país e não por se considerar o centro de erradiação de energia do universo). É incrível como essa gente consegue arrebanhar seguidores...'A força da grana que ergue e destroi coisas belas', como disse Caê sobre São Paulo.

Bueno, meu consolo é que não existe mundo ideal.
Talvez, só no Toejam & Earl.

5 comentários:

rc disse...

O triste é que Brasília é uma bomba-relógio adolescente, que vai levar um tempo ainda para estourar, enquanto SP e Rio foram bombas-relógio mais maduras, que, quando identificadas, não tinham muita solução. Brasília tem muitas soluções. O caos no trânsito, por exemplo, poderia ser enfrentado com mil alternativas - transporte público de verdade, transporte solidário, restrição de trânsito nas áreas centrais, ciclovias, etc., etc. -, mas não se faz NADA, apenas se enxuga gelo trocando uns ônibus modelo 1943 por 1957. A violência, que OBVIAMENTE tem fundo social, vai sendo empurrada para debaixo do tapete (entorno), em vez de ser encarada com políticas sociais e de segurança pública (prevenção). O inchaço da máquia pública também não ajuda, porque os novos servidores, geralmente bem pagos, atraem mais e mais pessoas em busca de oportunidades que nem sempre existem. Enfim. Os problemas são caros e as soluções idem. Assistir à morte, lenta, é que dói. E quem vai pagar o pato, como sempre, é o f&dido, porque os outros poderão lutar pela mudança da capital para Fernando de Noronha, num gesto visionário de integração nacional.

Paulinho Mesquita disse...

eu amo brasília. não me vejo morando em outro lugar. mas concordo que não sei se vou querer criar meus filhos aqui, tendo em vista o possível futuro da cidade. tá tudo mudado demais.

fico com saudade do meu tempo de moleque, quando tudo era bem mais tranquilo e não fazia diferença estar debaixo do bloco brincando, ou em casa jogando toejam & earl. tudo era fantasia!

Felipe disse...

Eu nasci e moro aqui há 32 anos e fico triste quando vejo problemas crônicos que poderiam sim ter sido evitados.

Meu colega de trabalho que mora em Águas Claras chegou hoje aqui às 9h30 e disse: "Cara, saí de casa às 7h30, levei das horar para vir até aqui". Eu perguntei: "O que houve? Acidente? Obra na via?". E ele: "Não, é assim mesmo". Deprimente.

Os metrôs, que estão sendo construídos agora a toque de caixa, deveriam ter sido planejados na concepção da cidade. Uma das coisas ruis que o Cristovam Buarque fez (ou não fez) por aqui foi parar todas as obras do metrô sob a alegação que Brasília não era cidade para metrô. Oras, não existe isso. O metrô é subterrâneo, não fere o tombamento e a ranzinzisse dele com um projeto criado pelo nefasto Roriz nos causa danos até hoje. O metrô já é lotado, e quando nego fizer o tal Setor Noroeste, que tem preço absurdo por metro quadrado, cada pessoa vai ter um carro ali. Tinham que avisar: "Quer fazer Setor Noroeste? Então faz três estações de metrô lá". Tem que estar no plano.

O problema social é outro caos, todo dia tem violência tosca no centro da cidade. O entorno é mais violento que os arredores do Recife, e o bolsão de pobreza, comprimido pelas áreas tombadas, não impede a galera de vir aqui para o plano piloto assaltar, sequestrar, roubar, traficar e matar.

É triste, ainda acho que tenha solução, mas não tenho perspectiva.

E amo a cidade, antes que alguém levante a voz para falar dela. Não saio daqui tão cedo.

Abs

Leandro Galvão disse...

Genial descrição sobre a cidade. O senhor está de parabéns e os comentários dos leitores estão perfeitamente pertinenentes. Também não saio daqui nem por um salário gordo em outra cidade, apesar de todos os problemas que estão se desenvolvendo por aqui.E viva essa Brasíla-véa-sem-lei!

Sem mais para o momento

Felipe disse...

É sempre importante ouvir e ler a opinião do Taverneiro acerca de qualquer tema.