Era entrega de medalhas do Campeonato Paulista de futebol sub-17. O time do Pão de Açúcar foi campeão e o jornal para o qual trabalho ofereceu um troféu ao melhor atleta da decisão. Leonardo, de 16 anos, camisa 11 do campeão, foi o agraciado. Era só entregar, apertar a mão e ponto final. Eu quis falar...
Na verdade. eu comecei dando azar por ter de cobrir o último jogo do campeonato que caiu exatamente no meu plantão.
Foi lááááá na Arena Barueri, uns 30 quilômetros da redação. O dono da casa, Grêmio Barueri, tinha que vencer por dois gols o Pão de Açúcar.
Sim, o Pão de Açúcar do supermercado. Mas os jogadores não são funcionários da empresa, é bom esclarecer. Engraçado é a torcida gritando
Pâââââââââââoooo!!!
Pâââââââââââoooo!!!
Assim mesmo, com acênto.
Pior eram os caras do Barueri, a pequenina torcida, que provocava respondendo aos berros:
Uh, uh é carrefú!
Uh, uh é carrefú!
A Arena é bem legal, mas é encravada no meio de uma favela e suspeito que não haja lugar para estacionar nos dias de jogos mais movimentados.
Na arquibancada, só família de jogador (ninguém torce pro Pâo aleatoriamente), uns gatos pingados da organizada do Baruca, empresários e ...eu!
Um dia antes da final, eu fui láááá na loja pagar e pegar o troféu para o melhor em campo. Oitenta e cinco contos de réis. Paguei no cartão, para somar milhas, e apresentei a nota no jornal. Dizem que nesta segunda vão me pagar.
É o troféu fera da final. "Oferecimento do jornal ao atleta que mostrar maior poder de decisão". Meu editor escolheu a chuteirinha dourada, feita de papel celofane e a bolinha, idem, idem.
O tal do Léo jogou bem.
Aos 17 do primeiro tempo, ele dominou no peito uma bola lançada da intermediária e invadiu a área pela esquerda. Com o biquinho do pé direito, enganou o goleiro e guardou a bola no fundo da rede, após ela ter passado por entre as pernas do arqueiro. Belo gol, principalmente porque todo mundo esperava um chute cruzado de esquerda.
Curioso é que ele realmente se parece com meu grande amigo Da Silva, homônimo, nos tempos em que brilhava no Baié do Monte Santo.
É difícil ver lances legais no sub-17. No geral, o clima é meio insalubre. Aquela situação de matar ou morrer dentro de campo, porque tá chegando a hora de explodir para o profissional aí os muleques se estouram lá dentro.
Bom jogador, nessa idade, é aquele que sabe tocar a bola e não pensa em resolver tudo sozinho.
Nas arquibancadas, ficam uns urubus travestidos de empresários rondando a mulecada para assinar um contrato predatório.
Para você ter uma idéia do desespero dos garotos, no final do segundo tempo, em Barueri, quatro jogadores caíram com câimbra. Nenhum deles pediu para sair.
O nosso Léo, cujo pai trabalha como motorista da ambulância do aeroporto de Guarulhos, saiu faltando 13 minutos, contundido. Quando completar 18 anos, vai para a Fiorentina. Já fez teste e foi aprovado. Depende só da idade.
O jogo terminou 1 a 1 e eu, consultando a mim mesmo, elegi Léo como o fera da final.
Não sei o que deu na minha cabeça que eu resolvi fazer um discurso.
- Olha, Leonardo, em nome do jornal, você recebe este troféu. Não só pelo belo gol na decisão, como também pelo desempenho ao longo da competição. Que este seja apenas o primeiro de uma série que vem por aí. Mas para tanto, é preciso ter juízo, garoto. Parabéns.
Espia só a expressão dele de feliz, após minhas sábias palavras:
8 comentários:
Graças a iniciativas como estas e ao apoio fundamental dos setores ligados ao esporte amador que o futebol brasileiro pode revelar novos talentos a cada dia.
A cobertura da imprensa desde os níveis mais amadores é fundamental para o surgimento de novos craques nos gramados brasileiros. Estes jogadores simples, de vida tão humilde e privada de acesso a bens materiais restritos à classe média, alimentam, no futebol, o sonho de um dia serem alguém na vida.
Porque o futebol, esse esporte tão encantador para nós brasileiros, é capaz de fazer cosias que ninguém imagina.
O futebol, ah, o futebol. É uma caixinha de surpresas.
Você é ridículo (e gordo) :). Ah! Você estava bêbado?
Sem mais para o momento...
P.S.: O Felipe é homo-afetivo? Que discurso mais... "colorido"...
Martins: o futebol brasileiro so atingiu o nivel em que se encontra hoje pq as categorias de base sao bem trabalhadas e revelam, aa exaustao, grandes talentos. esperamos que o leonardo do pão de açucar seja mais um craque que alegre nossa maravilhosa torcida num futuro proximo.
Vintao: a tendencia é piorar!
Timbu: ridiculo, gordo e careca. Mas sobrio, diga-se!
o grito das torcidas é ótimo!
viva a criatividade brasileira!!
Leandro: esse é o futebol brasileiro. (deposi pergunta pro Daniel o verdadeiro sentido desses comentários geniais) hahahaha
Leandro, pede pro Daniel explicar a retórica do "new new journalism" presente no referido comentário, heheheeh...
Admito a semelhança com o meu homônimo. Mas ressalto que na idade dele eu também já fui uma "promessa" do futebol. E não passei disso, mesmo depois de ter tentado a sorte no submundo do futebol. Me convenceram que ali não era minha praia. Uma melhor sorte para o Léo do Pão.
Quem sabe um novo Romário...
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