segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sexta-feira Santa, corrupção e dois roubados na Costa Rica

Reza a lenda que era melhor se render ao bando de Lampião, no sertão do Nordeste, e dar dinheiro, bebida e comida aos cangaceiros a pedir proteção aa polícia.

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Foi uma viagem fantástica. Um roteiro perfeitamente encaixado para a quantidade de dias. Em sete dias, sete cidades da Costa Rica, sete atividades diferentes, milhões de histórias.

Como a paciência (de quem lê e de quem escreve) é pouca, deixe-me relatar apenas uma delas aqui.
É lei na Costa Rica: Sexta-feira Santa os bares não podem abrir e não é permitido vender bebidas alcoólicas no país. Só depois da meia-noite do Sábado de Aleluia.

Na companhia do grenà White Martins, cheguei aa capital San José no fim da tarde desta sexta-feira. Era final de viagem, final das férias mais intensas da minha vida, final de Quaresma. Eu tinha porque tinha que tomar uma gelada. Ele também.

Saímos pelas calles a procurar um bar aberto. Não acreditávamos na informação que a recepcionista do hotel nos dera, de bares e lojas de bebida estavam fechadas por decreto.

San José é uma cidade simpática, com ruas estreitas (como todas as estradas do país), arquitetura colonial tipicamente espanhola, casas baixas, muitas delas de madeira, e diversas lanchonetes made in usa, como McDonalds, Wendys, Dennys, Burguer King...

Com ajuda do GPS, passamos em frente aos points da cidade, que estavam aas moscas. Decidimos parar em um restaurante de comidas típicas. Eu pedi um frango na folha de bananeira, com queijo, arroz-e-feijão. O prato local é arroz e feijão. Não importa a hora. White pediu meio frango assado, com codimentos locais, cujo nome não me lembro agora. Arroz-e-feijão.

Insitimos ao garzón para que nos vendesse uma bebida que fosse. White chegou até a pedir cerveja sem alcool.

Em vão.

Eu me dei por vencido pelas circunstâncias. Seria muita energia para uma cerveja só. Ou duas (O sábado seria de arrumação de malas e 10 horas de vôo de volta). White, por sua vez, iniciou seu discurso agnóstico:

- E as pessoas que não são católicas? Se elas quiserem beber? Como pode uma cidade com dois milhões de habitantes se submeter a uma lei do cão dessas?

Ele acionou o GPS em busca de um local chamado Gringos Bar. Pensou: 'Bueno, os Ticos (como os costarricenses se referem a si mesmo) não bebem, mas o gringos podem beber, não?'. Ele queria desafiar a lei do país.

Deixamos os frangos pela metade e fomos ao gringo. Assumi o volante do carro. Demos a volta no quarteirão, passamos dois semáforos vermelho (as ruas estavam vazias, era melhor não arriscar) até que uma lanterninha de luz meio azulada me ofuscou a vista por dois segundos.

Era uma miniblitz. Policial me fez sinal para encostar o carro.

Logo na última noite. A noite que deveria ser a mais leve de todas. Para reverenciar a Costa Rica, este país de rara beleza natural, de povo extremamente simpático.

Nos dias anteriores, fomos parados duas vezes pela polícia nas estradas. Em uma delas, eu estava dirigindo a 94km/h e fui pego num radar móvel, cujo limite era 60km/h. O policial, muito simpático, disse que da próxima vez eu seria multado, mas que eu andasse devagar. 'Pura vida!', se despediu, citando o jargão turístico costarricense, sem pedir documentação.

Da outra vez, White estava ao volante e não teve problema.

Quando o guardinha me mandou parar, em San Jose, e pediu os documentos, apresentei apenas meu passaporte em vez de dar a carteira de motorista.

Minha carteira está vencida desde 28 de dezembro de 2008. Me aproveito da incompetência dos Detrans do Brasil para continuar dirigindo sem problema. Quando alugamos o carro na Costa Rica, apenas White foi habilitado pela locadora para dirigir.

O guardinha, com cara de porco-espinho e barriga de vigia noturno, sacou que eu tava querendo engabelá-lo.

- Cadê a carteira?
- Tá no Brasil.
- E você dirige por aí sem a carteira?
- Me disseram no Brasil que eu podia dirigir na Costa Rica só com o passaporte.
- Cadê o documento do carro?
- Tá aqui...
- Aqui (no documento do carro) diz que apenas Felipe (White Martins) pode dirigir. Você não é Felipe. Está bêbado?
- Não!!! Não se vende bebidas na Sexta-feira da Paixão.
- Espere aí...

Foi ao carro, que estava ao lado de um caminhão de reboque da polícia de San José. Trouxe um aparelhinho pequeno, parecido com aqueles celulares antigos da Erickson. Soprei nele. Era um bafômetro. Deu índice de alcóol menos zero.

- Você será multado por não estar habilitado a dirigir. São US$ 100 e o veículo será rebocado.
- No, señor, por favor...
- Não, não...Multa de US$ 100 e reboque.

Desci do carro e descasquei todo meu portuñol. Veja no replay:

- Mira, yo dirijo porque mi amigo dirijió por três horas desde La Fortuna (vulcão ao lado) estava cansado e yo pedió para assumir la direción por estos trezentos metros desde el hotel hasta el restaurant. Perdonanos, por fabor!

Essa história foi repetida oitenta e cinco vezes para sensibilizar o guarda. Que estava ao lado de mais um capanga uniformizado, com bigode de Charles Bronson e gravata de xerife.

Eles não deram a mínima para minha lorota. Nem o próprio White aguentava mais ouvir esse portuñol ridículo . Ele desceu do carro disposto a encerrar a polêmica:

- OK, caras, então dá a multa que a gente paga.

Quando perceberam que nós éramos (somos ainda, né?) pessoas dispostas a cumprir la ley, o porco espinho disse:

- Bueno, se for para cumprir la ley, então o carro vai pro depósito...Além da multa.
- Opa! Depósito, no, señor!
- Bueno, entosis, invitamos para un fresco ou un café?
- Como?, perguntamos os dois, White MArtins e eu.
- Paga um café ou um suco para gente e esquece tudo o que rolou aqui ahora. Entra no carro (para não dar na cara que vocês são dois turistas otários...)

(Parenteses meus!)

Entramos no carro, White sacou uma nota de C$ 10.000, 00 (dividimos o prejuízo, depois) e entregou na mão de Charles Bronson. O porco espinho confirmou que a multa não existiria mais.

Dez mil colones, a grana que pagamos aos capangas, equivale a R$ 50, dá para morrer de taquicardia de tanto tomar café, ainda mais na Costa Rica, terra do café grátis.

10 comentários:

Leandro Galvão disse...

Não importa o lugar. Policiais são assim. Seja no Morro do Alemão, seja na pequenina Campina Grande ou na Costa Rica. Um grupo de quatro amigos já teve que pagar propina a dois policiais rodoviários na auto-estrada, porque estavam sem carteira. Mesmo após a carteira chegar via fax, os CHarles Bronson daqui exigiram a grana. Agora... imagino você com essa cara de nórdico e o Felipe com cara de nerds tentando emgambelar os tiras. Dois caras gordos e branquelos como vocês, com uma placa de "turista" pendurada no pescoço, têm que ser sacaneados mesmo :)

Sem mais para o momento

Felipe disse...

Pior é que eu fiquei com imagem positiva do país. Na primeira vez que pararam a gente, o cara nem viu que o Daniel nao podia dirigir e ainda estava com a carteira vencida e havia sido flagrado a 91km/h numa estrada em que o máximo eram 60km/h.

Mas é como te disse: o cara não queria que eu pagasse a multa de jeito nenhum. Ele queria extorquir e, para isso, o ideal seria pegarnos bêbados. Aí a gente teria morrido numa grana muito maior.

Preferia, contudo, ter pagado a multa de US$ 100 - ao contrário de voce, que ficou feliz com a propina. Mas, como disse, não adiantaria. O cara queria mesmo era extorquir. Quando eu me dispus a pagar a multa, ele disse que ia recolher o carro.

O mais tosco foi voce com essa historia sem pe nem cabeça de que "no Brasil me disseram que na precisa de habilitação para dirigir na Costa Rica". Era uma afronta. Os caras ficaram indignados, disseram que ja viajaram e nunca viram isso.

E voce, repetindo cem vezes que eu tinha dirigido o dia todo e estava cansado (mentira!!!) e a cara de indiferença dos sujeitos... patético.

Mas antes que o povo que lÊ isso aqui fique com uma imagem ruim do país, digo que acho que isso foi exceção. O país é fantástico, as pessoas simpaticas, solicitas e alegres, além de terem noção do turista gringo (americano) e dos outros.

Precisaríamos ainda de uns 15 dias para conhecer direito o país.

Abssss, Bilicaaa

ps: WHY DID YOU FUCKING SEND THE PICTURE???

Paulinho Mesquita disse...

o lance é esse mesmo. os caras queriam a grana pra eles. ninguém queria que vcs pagassem multa.

mas tenho de concordar com o felipe. dizer que no brasil te disseram que poderia dirigir só com o passaporte é demais!

assim, minha irmã de 14 anos tb poderia dirigir, né?

Guilherme Zé Gotinha disse...

Porra, sensacional. E não comeram ninguém nem encheram a lata na Semana Santa, heoheohe.

DB disse...

cara, com 10 paus da para tomar umas dez cervejas...pelo menos nos lugares onde a gente foi.

rc disse...

Ficar com má impressão do PAÌS ? No máximo, daria pra ficar com má impressão dos turistas!

Unknown disse...

Moral da história: policial é tudo fdp e brasileiro sempre quer ser esperto, tirar vantagem.

Madame Mim disse...

Gostei do jacaré.
Peguei muita raiva de polícia faz tempo.
Eles são péssimos em quase todo mundo, pelo jeito, não só no
Brasil
bjos

Vanessa Dantas disse...

No fim, saiu beeeeeem barato!!!

Que bom saber que a viagem foi ótima! Bem vindos!

Beijo.

Anônimo disse...

Caro Daniel,

Meu nome é André e achei interessante a história publicada.

Não consegui ver o seu email no blog, mas estou viajando pra Costa Rica e gostaria de umas dicas das estradas por lá! Poderíamos conversar? Meu email é andcastrocar@yahoo.com.br