O que eu ia fazer com 10 meticais a mais no bolso?
Metical, para quem não conhece, é a unidade monetária de Moçambique. Um metical não compra nem um tostão furado. O negócio começa a valer depois dos 10 meticais. Um real são 12 ou 13 meticais, mas eu arredondei tudo para 10. Um dolar, 25 meticais. E por aí vai com libras e euros...Legal que as notas todas tem a cara do comandante Samora Machel.
Por causa desses 10 meticais eu ia levando uma tremenda surra de dois camaradas na feirinha do Tofo, praia (parenteses para os inumeros adjetivos, linkados, alias ao excelente blog sobre Moçambique) a 500km ao norte de Maputo, a capital.
(Atenção, este texto é grande. Se você não tiver tempo, pare por aqui, porque eu não levei surra de ninguém em Moçambique)
Bueno, estava eu la em Tofo batendo papo com um surfista francês, um casal de lésbicas suecas, universitarias californianas, dois irmãos mergulhadores da África do Sul, um casal holandês, um espanhol torcedor do Barça... Todos contando experiências maravilhosas sobre o dia em que fugiram do circuito inflacionado dos restaurantes de Tofo e foram almoçar na feirinha.
Compraram o peixe, ou a lagosta ou camarão tipo king, os legumes, os codimentos e levaram para uma velhota qualquer cozinhar em sua barraca. Além de sair mais barato que o cumê oferecido pelos restaurantes, era uma bela experiência antropológica.
Depois de passar a manhã fritando num barco tentando mergulhar com tubarões baleias, e umas braçadas afobadas para fugir de inofensivos golfinhos do Índico, fui, faminto, aa feirinha em busca das lagostas.
Sentei-me em um banquinho e fiz de um carretel gigante (que deve ter sido usado para enrolar fios de alta tensão) como mesa. Pedi uma Mac Mahom, a famosa cerveja 2m, tida pelos nativos como a melhor do país. Pois bem. Trinta meticais por uma geladinha.
Estava impressionado com sua dedicação por apena 50 meticais. Era feriado da independência em Moçambique (Viva o comandante Machel!) e a praia estava lotada de nativos. Um deles se aproximou e puxou papo.
Como bom paraibano, entrei na conversa e o convidei para se juntar aa minha experiência antropológica. O nome dele: Diniz Mendes. Assim mesmo, o nome era sobrenome. É o mais velho de nove irmãos, tem 21 anos, mora em Inhambane, 20km distante do local onde conversávamos, trabalha como garçom num restaurante chamado Casa de Comer (pelo menos foi o que me disse).
Me explicou sobre as origens da praia, como é a vida em Inhambane e sobre a malícia dos comerciantes locais com os estrangeiros. Seja ele brasileiro ou sulafricano, australiano ou norueguês. Quem é turista, pensam os moçambicanos, está cheio de meticais no bolso.
- Por exemplo: quanto você pagou por esta 2m?, me perguntou.
- Ahn, acho que 30 meticais, mas eu peço desconto.
- É, mas para nós custa 10 ou 15 meticais. Às vezes, bem às vezes, sai por 20.
Dona Marta com as cabeças de lagosta. Diniz levou logo para a boca uma cabeça, sem que eu o oferecesse.
Tudo bem, vamos la.
Pedi outra cerveja.
Espinho vai, papo vem, bate daqui, espreme dali, foi chegando mais gente para minha mesa. Não queriam a lagosta, tentavam vender chaveiro, óculos, cerveja, camisa, mais lagosta, viseira, artesanato...
Um grandalhão, com rosto de bola e cabeça raspada, usando uma camisa vermelha feita para turistas com motivos moçambicanos, me viu de longe e veio em minha direção. Chegou desconfiado, olhou-me de cima a baixo, apertou minha mão e falou:
- É um prazer apertar a mão de um branco, disse-me, fazendo cara de quem queria mais que eu me f*desse.
- Eu não sou branco, sou brasileiro, respondi, utilizando-me do egocentrismo tipicamente tupiniquim.
Ele não ouviu, conversou alguma coisa em bitonga com Diniz e foi-se.
Bom, deixa eu adiantar essa história, porque já tá grande demais.
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As lagostas com cebola, pimentao e a batata vieram, estavam deliciosas Comi com uma colher mesmo. Chegou a hora de pagar a conta.
- Toma aqui, dona Marta, os 50 meticais pelas lagostas. Estavam maravilhosas. Agora, a cerveja, quanto é?
- Sessenta meticais.
- Sessenta meticais?
- É! Não foram duas 2m? Sessenta!
- Olha, eu sou brasileiro, não sou americano, não tenho dólar, faça um desconto...
Aprendi essa frase no Peru, no começo do ano. Tudo é possível negociar. Mesmo que seja só um real, mas é pelo prazer de dobrar o vendedor. Ainda mais para mim, que sou um péssimo negociador, em qualquer área da minha vida, eu não consigo negociar nada direito. Mas essa tática peruana já me rendeu alguns descontos legais na Costa Rica e na África do Sul, além, claro, do Peru, e na Paraíba.
Mas não em Moçambique!
- Você não vai pagar, né?, me disse Dona Marta, com um ar acusador. - Espera só um minuto: Fulano, Sicrano, vem cá me ajudar porque este gajo do Brasil não quer pagar...
- Você, brasileiro, não vai pagar aa Dona Marta?
- Não, peraê, eu tô conversando com...
- Ela disse que você não quer pagar. Agora, me diga, por que você não vai pagar a cerveja?
- Não, eu vou pagar...
- Então dá os 60 meticais!
- Calma, é que eu quero negociar o preço da cerveja...
- A cerveja é 30 meticais, você tomou duas. Olha aqui, amigo brasileiro, eu sou da polícia civil moçambicana, tu podes ser preso ou coisa pior, sabia?
- Perae, deixa eu falar uma coisa com ela. Dona Marta? Dona Marta, me dá um descont...
- Brasileiro, não existe desconto. Cadê os 60 meticais?
O clima ficou tenso.
Por uns cinco minutos eu realmente queria pedir um desconto. MAs a coisa ia só piorando. Eu queria que ela fizesse a cerveja por 50 meticais, ou seja cinco e não seis reais. Em um lance de um segundo, olhei em minha volta e a feirinha havia parado. Estavam todos olhando para mim. Os gringos (sueco, australiano, francês, americano) me olhavam com piedade ('iiihh, coitado!!'). As moças que trabalham na feira queriam ver meus 60 meticais.
Diniz Mendes tentou me ajudar, mas foi empurrado por amigos de dona Marta. Foi quando acabei com o papo.
- Toma aqui essa merda desses 60 meticais, c*ralho!!!!, disse, me embananando com as moedas que caíam do meu bolso e só me deixavam em situação ainda mais constrangedora.
Ao sair, pisando forte no chão de areia da praia, ouvi dona Marta reclamando:
- Você vem aqui, me faz gastar meu oleo de cozinha, meu carvão e não quer pagar.
Eu voltei, com a cara vermelha de vergonha e raiva, e falei em voz alta que havia pago o que ela pedira pra cozinhar as lagostas, só queria que ela fizesse o preço justo pelas cervejas, baseado no que Diniz havia me dito ('Para nós, a cerveja custa 10 ou 15 meticais').
Quando estava saindo, um neguinho descalço, com camisa do Olimpique de Marselha, me puxou pelo braço e perguntou o que eu estava aprontando. Eu disse, nervoso, tudo isso que falei aqui e ele me mandou para ficar calmo porque também era da polícia civil de Moçambique. Dei de ombros e segui meu caminho para a praia.
Diniz me seguiu. Bebendo um rum chamado 'tipo tinto', me parou e pediu:
- Ei, me dá 20 meticais?
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Ao relatar a história para os irmãos (branquelos) mergulhadores sulafricanos, eles me disseram:
- Tá vendo? Eles (negros) são assim...
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Fotos de Moçambique e South Africa aqui, humildemente (fotoblog ainda em atualização).
4 comentários:
é briba, tem que ficar ligado no "cultural" de cada lugar, né?
imagina se tu volta com uma surra na bagagem?
Pensa bem: se fosse no Rio você já tava na vala.
p.s.: Meu amigo, leve sempre o telefone da Embaixada e principalmente do Plantão Consular quando for viajar.
porra!!! que massa!!
why the fuck you send the picutre?
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