Os intestinos nos quais eu me meti sãos os ônibus, o Conjunto Nacional, a Vila Planalto, os taxis com 30% de desconto. Um mundo que não conhecia, mesmo depois de ter morado 15 anos no quadrilátero federativo.
Você aí, que tá lendo, já deu uma caminhada pelos corredores mal feitos do Conjunto Nacional às 18h de um domingo qualquer? Já desceu de um ônibus entupido às 8h na Rodoviária do Plano Piloto e comeu um pastel-frio-com-caldo-de-cana na Viçosa? Viu o taximetro correr cem rotações por silésimo nas ruas sem placa da Vila Planalto? Pegou lotação num Unim 1998 para a L2 Sul?
Poi zé, eu já. Nem todas as ações são tão perigosas e/ou depressivas quanto parecem.
Veja o caso do Conjunto Nacional. O primeiro xopên de Brasília. Li no Correio, anos atrás, que é o segundo xopen que mais fatura no Brasil, atrás apenas do Iguatemi de Salvador. Curioso porque n'O Globo, dia desses, li que o Barra Xopen era o líder desse ranking. Conjunto tava longe daquela notícia.
Anyway, o Conjunto é um grande indicador social do DF. Quanto mais gente assistindo ao noticiário naquelas TVs de mostruário na Ricardo Eletro, Novo Mundo, Ponto Frio, maior o índice de desemprego. Quem vai passear no Conjunto se não forem as pessoas que andam de ônibus?
Ah, tem gente, sim.
Um amigo dos meus pais.
Esqueci até de contar para eles essa história.
Num final de tarde de domingo, cruzei com um amigo de longa data da minha família. Um cara que se separou da mulher após 30 anos de casado para ficar com uma kokotinha. Pois avistei-o-o-o guiando um carrinho de bebê com a tal kokota (deve ser), uma morena grande, mas longe de ser gostosa, ao lado da màe, ou alguém que a valha, com cara de mal humorada. Como o homem só tem um olho, porque o outro lhe foi alijado após um atentado à arma de fogo, dez anos atrás, ele não me viu.
Encontrei muita gente 'interessante até um neto bastardo do meu bisavô'. Como dois caras que trabalharam como motoristas em empresas onde já prestei meus serviços. Um vendia bombons (feitos pela esposa) no estacionamento. O outro, oferecia seguro de vida, de emprego, de saúde, de carro...
O Conjunto é estranho porque ele sozinho corresponde a um bairro, ou setor de Brasília. O Setor de Diversões Norte. Pelo clima na região e pela cara das pessoas que circulam por ali, tá longe de ser divertido ficar/estar/permanecer/parecer na região.
Mas é uma baita experiência antropológica. Quase como negociar o preço de lagostas em Moçambique.
Incrível como eu não consigo esquecer a terra de Samora Machel. Todos os dias de manhã eu me lembro de Moçambique. Por causa de um grande favor, estou morando numa kit defronte ao lago Paranoá, minha janela emoldura a margem N/NE do lago. Justamente onde o sol nasce. Até as oito e pôca, os raios ainda se arrastam pelas marolas do lago e é preciso forçar a vista para ver o que está em volta do lago: as árvores tortas na margem, dois barcos à vela 'conversando', trabalhadores jogando entulho no raso, garças em seu exercício matinal...
Não é preciso apagar a luz, eu fecho os olhos e tudo vem...
3 comentários:
Cara, um dos textos mais legais sobre Brasília que eu já li por aí. E assim a cidade vai sendo romanceada e desmitificada como um lugar sem vida, como muitas pessoas que vêm de fora insistem em repetir aos quatro ventos.
Abração, Bilica!!!
As vezes me pergunto o que tem no CNB. Eu ODEIO aquele lugar, mas tenho que ir pelo menos uma vez por semana. E o Conic? Que budega é aquela? Mas me divirto... É o centro de uma cidade mais estranho que conheço rs. E vamos combinar, agora melhorou, pq retiraram os camelos, antes era a visão do inferno mais legal que já vi na vida. Adoro camelos kkkkkkk
quer uma experiência antropológica bacana sobre brasília?
faça o que fez pelo conjunto/conic. veja todos os elementos esquisitos de lá. depois, dê uma banda pela rodoviária, coma o pastel com caldo na viçosa e desça até o metrô.
lá, pegue o primeiro trem para o parkshopping e sinta todas as diferenças...
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