A catöta é uma cachorra doce, mas só até certo ponto.
Agora que ela está em uma nova fase da vida, de volta a SP, (vai saber por quanto tempo mais), mas se readaptando ao estilo de vida da megalópole e morando exatamente no centro nevrálgico da mesma [eu tenho medo do mesmo].
Então ela vive um período de liberdade vigiada. Não há mais para ela aqueles espaços abertos desenhados por Lúcio Costa, nem aquela convivência harmoniosa com diversas espécies de seres humanos. Tampouco dispõe das mesmas horas livres para curtir a vida à luz do céu profundo, dado o tumulto e sujeira que emporcalham o centro de sao paulo.
Ela vive aos choros pela nova casa implorando para ser levada ao térreo para fazer suas necessidades fisiológicas sem precisar utilizar um jornal para não sujar o chão do apartamento. Quando está nas ruas, é presa por uma coleira incômoda e curta, que não a deixa correr como nos tempos em que vivia na ciudad-park.
O que justamente deixa catöta ainda mais triste e aborrecida é não poder correr com outros cachorros.
Em círculos, desesperadamente, ziguezagueando, tropeãndo, gastando energia, se esticando, se esborrachando, se esfalfando. Antes da brincadeira, porém, ela precisa conhecer o amiguinho de corrida. Um minucioso exame de olfato consiste em: averiguar e ser averiguada nas partes íntimas e dar uma lambida e ser lambida no fucinho do novo amigo. Não necessariamente nesta mesma ordem.
Assanhada, prefere brincar com os machos. Ela estranha as fêmeas, apesar de aceitar uma corridinha aqui e outra ali vez por outra.
Com a coleira, Catöta não consegue o espaço que precisa para cheirar e lamber o amiguinho e se irrita. Daí começa a latir e mostra os dentes, fazer barulho e dar escândalos. Se for uma fêmea, pior ainda.
Comprei uma coleira de três metros, daquelas que se retrai de acordo com o botãozinho nele acoplado, para vê-la correr um pouquinho mais.
Ela parecia feliz até cruzar com um poodle fêmea na saída da São João para o Vale do Anhangabaú. Esticou a coleira até os três metros permitidos pela engenhoca, tentou cheirar um pouco mais, fez uma manobra que a correa não aguentou e estourou. Com o barulho, ela abocanhou a patinha da poodle, mas nao cravou os dentes, porque esta, a poodle, já estava sendo levantada pelo dono, indignado com a virulência da doce catota.
Puxei ela aos gritos e a coloquei no colo. A confusão chamou atenção no Anhangabaú. As três prostitutas que dão expediente naquele rincón histórico da cidade se espantaram com a explosão de raiva. Todos os dias elas fazem um agrado a catota ali. Expliquei aas jovens que a catota não le gusta las fêmeas, sabe-se lá por que motivo.
Ao que uma delas, de calça jeans clara e baixa, com a calcinha vermelha aa mostra, pêlos loiros reluzentes no sol da manhã de vento frio paulistana na ponta do bucho ao estilo borda de catupiry, replicou com sotaque nordestino:
- Inrrii meu filho. Aqui com a gente acontece a mesma coisa. Ela tá é certa, mulher nenhuma merece confiança.
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