quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O ataque à cidade-parque e o contra-ataque dos quero-queros

Quem vem a Brasília pela primeira vez estranha a quantidade de espaços vazios, só com grama e árvores retorcidas. Lembro-me da visita de Da Silva, cinco anos atrás, quando passávamos por aquela regiào do Bosque da Constituinte, atrás do Praça dos Três Poderes.

Ele perguntou:

- E ninguém constrói nada aqui nesses lugares?

Ri da dúvida. Afinal, cresci 'nesses lugares', não no Bosque, mas nessas áreas verdes. Aprendi a jogar bola nesses gramadões. Habilidade (pouco) desenvolvida com a ajuda dos troncos sinuosos das árvores típicas do cerrado que lembravam a forma de uma trave com travessão.

Para cada prédio, havia um super gramadão. E a gente analisava as condições do terreno para fazer um novo campinho. Aliás, mania que meu irmão conservou até os últimos dias que morou em Brasília.

Passei férias andando de bicicleta por essas áreas, fingindo ser um mountain biker, procurando jamelão e manga pelas quadras vizinhas.

Ou seja, nada mais normal do que ver espaços 'em branco' entre um prédio, uma quadra, um setor e outro. Estranho era aquele amontoado de prédios mal planejadas, com as janelas se beijando, com vizinho dando bom dia para você, ao acordar, coçando os bagos...Isso que era estranho.

Em Campina Grande, a propósito, áreas verdes são terrenos baldios.

Por causa das áreas verdes, Brasília planejada pelo genial Lúcio Costa recebeu o nome de cidade-parque. A ideia de uma metrópole rodeada por verde, onde as pessoas circulariam e conviveriam em um espaço limpo, sem a claustrofóbica proximidade de grandes centros, o que dá aquilo que as pessoas gostam de chamar de qualidade de vida.

Para os animais também. Desde os domésticos, passando pela grande quantidade de aves que deixa de migrar para outra região porque seu habitat foi (teoricamente) mantido. Eu já vi tucanos sobrevoando áreas residenciais em Brasília. E estava longe do zoológico. Hoje de manhã fui acordado por um casal de papagaios cantarolantes dando um vôo rasante na minha janela. Ainda tem as corujas, os periquitos, as tesourinhas, os carcarás, as maritacas, os quero-queros...

Os quero-queros são aqueles pássaros de perna fina e meio longa, com bico saliente, de cor cinza, branco e detalhes em preto. Adoram vegetação rasteira. Estào frequentemente em campos de futebol, nas transmissões de TV. Já foram alvos de diversas reportagens 'diferenciadas'.

Dia desses, caminhando do trabalho, no Setor Bancário Norte, para um restaurante na 402 norte, passando por uma grande área verde de Lúcio Costa, saí em disparada depois que uma dupla de quero-queros me atacou . Eu devia estar passando ao lado de um ninho ou simplesmente de um lugar que eles julgavam que seria deles.

Foi uma ofensiva perigosa: ouvi um zunido mais alto do que o de um zangão nervoso. Em seguida, olhei para trás e um quero-quero desceu em alta velocidade em direção à minha cabeça, me esquivei e do outro lado veio mais um ataque. Eu estava com um guarda-chuva. Tentei espanta-los, mas eles pareciam que pairavam no ar esperando eu abrir a guarda. Corri desesperadamente sob o olhar vigilante dos quero-queros, à distância.

Foram 45 segundos de tensão. Eu não queria fazer nada a elas, apenas passar para o outro lado da quadra.

Mas eles devem estar se sentindo muito ameaçados desde que o governo do DF adotou a tática de Juan Laporta, o presidente do Barcelona.

(Tá, eu sei, É um absurdo, realmente, comparar o profissionalismo e o planejamento estratégico do milionário clube catalão à mesquinheza e cegueira dos políticos locais)

Veja se você não concorda com essa minha teoria:

O time ostenta a fama de nunca ter exibido publicidades na famosa camisa blau-grenà. Três anos atrás, Laporta veio com essa ideia de ajudar as crianças carentes e estampar a marca da Unicef no peito e nas costas e ainda pagar por isso. Bela carta de alforria. Um dia, o contrato vai acabar e Laporta vai falar: bueno, agora é nossa vez de ganhar. Vai lá e mete um mega patrocinador no espaço que já foi da caridade por um bom tempo...

O mesmo acontece com as áreas verdes de Brasília. Estão construindo prédios que servirão como sede para órgãos oficiais, tipo delegacia, tribunal militar, nova sede da PF, nos espaços em branco, aquele mesmo que Da Silva perguntou se alguém construía algo.

As obras se encaixam ali sob o pretexto de melhor servir aa população. Mas, eu disse maaaassss, para servir aaqueles que vão servir aa população, é preciso ter um restaurante por perto, uma agência bancária, uma academia de ginástica, uma padaria, uma farmácia, uma kitnet em cima de cada um desses estabelecimentos comerciais... Assim, vão atacando e destruindo o conceito de cidade-parque de Lúcio Costa e enchendo o bolso de dinheiro.

Aí a gente vai ter que torcer pelo contra-ataque dos quero-queros...

5 comentários:

Léo Alves disse...

É uma pena que estejam preenchendo esses espaços vazios com prédios. Entre outras coisas as áreas verdes foram as que mais me atraíram em BSB. Essa decisão (num sei de quem) vai de certa forma de encontro com o que se busca atualmente, que é justamente a proximidade com a natureza. Aqui em CG está chovendo condomínios horizontais de campo. E a galera tá pagando em média 200 mil por lote. Só para ficar perto da natureza. Sabendo dessas mudanças em BSB vou ter que agendar uma visita para rever verde, pois daqui a alguns anos serão prédios. E com isso o calor infernal.

Paulinho Mesquita disse...

é por isso que digo que nunca vou sair da minha 400, beira do lago e com uma vasta vegetação... espero que os quero-queros daqui permaneçam!!

RC disse...

Um milhão e cem mil carros também não ajudam muito a manter o parque dessa cidade-parque muito verdejante...

Helga disse...

"Por causa das áreas verdes, Brasília planejada pelo genial Lúcio Costa recebeu o nome de cidade-parque."

Acho que o Roriz não foi avisado.

Ei, tucanos não são difíceis de achar por aqui eheheheh.

Tem certeza de que eram papagaios? Sabe, eles são um tanto grandes e tal.. :D Gosto de revoada de periquitos. :)

Vc balançando guarda-chuva (guardachuva?) visto de longe deveria parecer BEM engraçado.

Astier Basilio disse...

oia, Daniel.
Quero-quero atacando
é meio que o uso
do próprio nome.
:D