Não tá na cara como o TI da pequenina e heroica e adjacências ou o NH do MaranIao e Piaui, o S chiado do Rio, do Pará e de Pernambuco, nem o erre tão retoicido que faz som de i como em coitado (cortado) de sp, do sul e do interiorrrrr do Brasil.
O sotaque de Brasília tá ali escondido entre um A aberto, com um erre cerrado, um som agudo levemente nordestino no E e no O, como na palavra nórdéstina. O esse rasteiro como em Goiás e Minas.
Por estar ali entre Minas e Goiás, todas as frases das pessoas que moram em Brasília há muito terminam com uma entonação meio mineiro-goiana. Muitas vezes, engolindo algumas sílabas.
É incrível porque o povo da cidade tem orgulha de espalhar por aí que não tem sotaque. Uma amiga, esposa do agente fifa Viera Fernandez, me contou que a fonoaudióloga da Globo pede que atores e jornalistas da referida emissora tenham o sotaque de Brasília. E os adestra para falar como uma pessoa sem S, R, TI ou DI, sobressalentes.
Mas isso é uma grande balela.
No dia em que quase levo uma surra numa barraca aos pés do Índico, em Mozz, fui interpelado por uma brasileira. Minnha primeira pergunta a ela foi:
- Você é de Brasília?
Dai deu-se o diálogo
- Sou, como você sabe?
- Ué, pelo sotaque (aqui uma frase mineiro-goiana, com a interjeição e a entonação típica dos dois estados)
- Ué, mas dizem que o povo de Brasília não tem sotaque...
É que eu sou observador. Mais curioso do que observador.
Nào foi preciso nem ela soltar um "véi" para eu saber. O véi é o pronome de tratamento usado por quase todos os habitantes de Brasília. Se ouvires alguém dizendo véi desse jeitinho assim, pode perguntar se é de brasília, pq a chance é grande, véi...
Ainda tem os camaradas que acoplaram o fiii aa conversa. Fiii é a primeira sílaba da palavra filho, com a única vogal esticada para dar um tom mais malandro. Não é oriundo de Brasília, assim como o véi também não o é, mas é característico. Assim como quase tudo de Brasília, nada é de Brasília.
Me arrisco até a dizer que Brasília é um dos poucos lugares no mundo em que o sotaque pode mudar em um espaço de 25 km. Não tô me referindo aa distancia do Centro de Tradiçoes Gaucha na EPIA para a Casa do Ceará na Asa Norte.
To me referindo ao Plano Piloto e aas QNL. QNL, para quem não conhece e manteve-se interessado a este texto até aqui, é a Quadra Norte L, Fica na triplice fronteira de Ceilândia, Samambaia e Taguatinga.
Por causa da Northeastern Invasion, há um sotaque próprio nas satélites. É uma coisa um pouco goiana (só um pouco) com esse rasteiro, sem TI e DI da pequenina e heroica, sem r coitado, mas com uma forte carga nordestina.
Se você não é das QNL e adjacências, já pode ter reparado no jeito que o motoboy do sirviço conversa com a copeira, ou pegou um diálogo pela metade em uma caminhada no parque ou nos xopen, principalmente o Conjunto Nacional, ou como são as entrevistas na rua das emissoras de televisão.
Mas se você vai na Asa Sul. Para numa quadra de futebol daquelas e começa a bater um papo com os boyzinhos da região, vai sentir a diferença. Ali, a onda é falar com uma malemolencia dos moradores de ipanema, é colocar meu irmão (mermão) no meio de quase todas as frases, repetir as palavras "cachú", "facú", "bike", "dog", "sinistro" (com esse rasteiro) e por aí vai...
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Sou péssimo para sustentar minhas "teorias estritamente pessoais".
12 comentários:
Muito bom o texto! Só uma pessoa de fora para poder fazer uma análise dessas...ADOREI! beijo, Ana Rita
Adorei sua análise! Perrrrfeita (com sotaque da minha Brasília). Eu reclamo, mas adoro a cidade! bjo! Quero receber os feeds do seu blog. Como faço?
Adorei sua análise! Perrrrfeita (com sotaque da minha Brasília). Eu reclamo, mas adoro a cidade! bjo! Quero receber os feeds do seu blog. Como faço?
Eu vivo dizendo que não temos sotaque. Meu marido, que é paulistano, insiste, morrendo de rir, que a gente não nota, mas o sotaque tá ali, característico. Eu digo que, então, tenho o sotaque William Bonner, pra encerrar a conversa. ;)
na verdade, ana rita, nem eu sei usar o feed. preciso dar um gas aqui neste blog para que os posts se transformem em tweet automaticamente e otras cositas a mas. por enquanto, vai tudo de forma artesanal: coloco o link no migre, de la, no twitter e assim vai! heheeh
Discordo de todo o texto. Não observo nada disso aí que você falou. Muito reducionista e estereotipado.
E a Ana Rita não sabe comentar.
Não noto muito sotaque em Brasília, não, mas "véi", "de boa", "tenso" e outros que tais me chamam a atenção. Outra coisa que tenho ouvido - não sei se ando nas companhias e ambientes errados - é "fiote".
Véi e Fii é do Espírito Santo camarada. Carpixaarba.
O "não-sotaque" de Brasília pra mim é um sotaque muito característico. Mas isso de mudar dentro da própria cidade também tem aqui em SP. Zona sul e Zona norte são bem diferentes...
Concordo com a Larissa. E discordo do Super Campbell.
Bj.
É isso mesmo, vc é muito observador e tem um ouvido ótimo. E o mais marcante é que realmente os sotaques variam de acordo com a região da cidade, como vc percebeu.
na verdade,em brasilia não é 'véi' é 'véio'...em minas que é 'véi'assim como 'fíi' q eu nunk tinha ouvido em brasilia,mas assim q cheguei em minas gerais,encontrei sendo uma giria bem comum,como também o 'nuuuh' e coisas assim...mas é verdade q lá em brasilia temos mta giria e reduzimos algumas palavras...mas eu tbm nunk notei sotaque nenhum lá.Isso deve ser mais fácil pra quem tá de fora n-n...tbm,com tanta gente com sotaque óbvio q vai pra lá,fica dificil notar o nosso próprio^^
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