segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Nacional-PB x Barras-PI

Às 15h do dia primeiro de dezembro de 2007, um urubu sobrevoa o Estádio Ernani Satyro, em Campina Grande. Nada representa melhor o momento. Neste dia e local, as duas piores equipes da fase final da Série C, o Nacional de Patos, da Paraíba, e o Barras, do Piauí, cumpriram tabela na última rodada do campeonato.

Antes de contar as histórias, cabe uma explicação. Patos fica a pouco mais de 150km a oeste de Campina Grande, mas não possui estádio com capacidade superior a 10 mil espectadores sentados. Por isso, foi obrigado a mandar seus jogos em Campina Grande.
A Rainha da Borborema, por sua vez, ficou sem um representante na Série C pela primeira vez desde 1999.
Ou seja, abrigar os jogos da terceira divisão foi um alívio para a crônica esportiva campinense. Já que Treze e Campinense estão de férias forçadas.
O Amigão, como é conhecido o maior estádio do interior da Paraíba, tornou-se a casa do Nacional. Esqueceram, no entanto, de avisar aos amantes do futebol em Campina Grande.

Nacional e Barras deveriam ter jogado na quarta-feira passada, mas os desavisados trombadinhas da região roubaram os cabos de alta tensão que geravam energia elétrica aos refletores, por isso, a partida foi desmembrada da rodada do meio da semana. Nem piauienses muito menos os paraibanos almejavam alguma coisa na competição, principalmente porque os quatro times que subiram para a Série B já estavam definidos.

Mas, sabe como é, né, jogo de loteria, contrato profissional com os atletas, taxa de arbitragem já paga. Teve que rolar o jogo de qualquer jeito.

Por favor, não me pergunte quanto foi, porque nem os jogadores devem saber. A verdade é que a partida foi marcada para as 15h para que não escurecesse (roubaram os cabos, lembra?). Esqueceram, mais uma vez, de avisar à polícia, que só chegou meia-hora mais tarde.

Enquanto isso, o quarteto de arbitragem bateu um papo super-descontraído na sombra....
O camisa 10 do Nacional foi fazer uma média com o pessoal da imprensa, também na sombra...
A mocinha funcionária do bar levou a filhinha para aprender a dar os primeiros passos na arquibancada...
Seu Pedro saiu um pouco de dentro de casa, porque já estava de saco cheio da mulher. Vale mais uma explicação. Seu Pedro é o dono da Perilima, time da primeira divisão paraibana, cujo nome é a reunião de suas iniciais: Pedro Ribeiro de Lima.
Perilima é, também, o nome da fábrica de sordas que ele mantém na cidade. Sorda é uma espécie de bolacha feita à base de mel de rapadura. Quem é diabético e olha para o pacote de bolacha, meu amigo, tem uma crise na mesma hora... Já que estou falando dele, deixe-me contar mais um causo.
Desde 2002, aos 58, ele resolveu começar a jogar bola no time profissional. Ganhou destaque nacional (ele gosta muito disso) mas ficou ainda mais feliz porque recuperou a saúde. Enquanto Nacional e Barras duelavam sob o sol do Nordeste, ele soltou essa:
- Desde que voltei a jogar, minha saúde ficou melhor e recuperei meu tesão. Acordo todas as noites empolgado, procuro minha mulher, mas ela parece que faz as coisas de má vontade. Eu já avisei a ela: 'arrume uma amiga, então...'
(!!!!!)
Retomando o raciocínio...

Apenas a Rádio Tabajara transmitiu o jogo. O povo paraibano é fissurado em rádio. Antes que venham piadinhas sem graça, Tabajara era o nome da tribo indígena que ocupava a Paraíba havia 500 anos.
Ah, o estádio tem o apelido de Amigão, porque em João Pessoa foi construído um idêntico a este, mas bem antes. Criou-se aquela animosidade, mas para diminuir a rivalidade entre as cidades, o governo criou o estádio Amigão.
Pelas minhas contas, quatro pessoas compraram ingressos. Só consegui reunir três testemunhas para a foto, mas deveria ter uns sete ou oito pagantes, porque teve gente que tirou cinco reais do bolso para ver o jogo lá do outro lado, no sol. Eu contei três doentes do lado de lá.



Foi uma grande sorte o Nacional não ter chegado à última rodada com chances de subir.

Pela quantidade de irregularidades na estrutura do estádio, um desabamento semelhante ao da Fonte Nova poderia ocorrer na pequenina e heróica Campina Grande. Quero ver quando rolar um Clássico dos Maiorais, entre Trez e x Campinense, capaz de colocar 28 mil pessoas aí. É rezar para sair vivo e pelo portão de entrada...



Ao final do jogo...


...o pessoal do bar me agradeceu por ter gasto R$ 14. Tomei todas as cinco cervejas geladas que estavam lá e três cocas....

18 comentários:

Anônimo disse...

Na minha opinião esse foi o posting mais interessante de todos até hoje! Muito legal!

Toty Freire disse...

concordo iara. esse post foi demais... histórias, histórias.. e as fotos? pô.. me amarrei... coloca outra história ai dessas bandas, briba!

Felipe disse...

Caracas, sem dúvida esse foi o melhor post que voce ja fez aqui. Divertido de ler do começo ao fim. A renda foram... quatro pagantes? é isso??? Sensacional a história toda, hahahahaha...

PS: Mandei o link para uma galera ver também.

Paula Barros disse...

Oi, Daniel entrei num blog que tinha tanta coisa de futebol, que lembrei de vc, não sei se vc vai gostar. Não li.Nem conheço. As vezes tem outros lá linkados.
http://fabiomayer.blogspot.com

concordo com os três comentários acima.

Unknown disse...

Porra, Daniel Brito, gostei muito. Muito interessante, e é bom que os torcedores leiam e comemorem o fato de estarm na Série B, e não no inferno da C. Pesadelo que vai incomodar o Santinha em 2008.

Fernando Firmino da Silva disse...

Daniel, que história instigante, principalmente para quem conhece os personagens e o cenário descrito. Me senti assistindo a uma reportagem especial do Esporte Espetacular na narração de Sergio Chapellin com as imagens em destaque e aquele fundo músical. Muito bom o texto. Foi publicado no Correio Braziliense? Valeu. A melhor crônica sobre o campeonato brasileiro. Se o Corinthias caisse para a terceira divisão iam precisar mais do que nunca do seu hino: "SALVE, O CORINTHIANS....".

Por falar em Corinthians é impressionante o quanto a mídia esportiva é feita apenas para os grandes clubes. O Esporte Espetacular de domingo fez uma reportagem de mais de 40 minutos com um time que está caindo. A desigualdade de cobertura no Brasil é impressionante. Só os grandes times têm espaço. Os pequenos só para narrar assuntos pitorescos ou quando, em fase final, conquista alguma coisa. Para o Corínthias as equipes de reportagem acompanham há meses os jogos para fazer reportagens. Eu acho que não é desculpa a justificativa de que tem a maior torcida. A torcida do Bahia praticamente lotou todos os jogos na terceirona(não sou torcedor do Bahia, mas do Sport) superando a média dos grandes clubes da série A, mas a cobertura foi só do acidente na Fonte Nova. Claro que o acidente tem que ter ampla cobertura até para que não ocorra mais, a questão não é essa. Mas é ridículo no Brasil torcer por time pequeno e médio porque você se sente como morando numa pequena cidade que como dizem "não aparece no mapa". Aqui no mapa do futebol. Logo, o que chamam elite do futebol deixará de ser a série B para virar algo bem particular tipo Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Internacional, Grêmio, Cruzeiro, Fluminense e por aí.

A torcida agora é para que o Corinthias conheça o inferno da série C. Como a torcida é fiel ajudará os pequenos times na renda. E que atraia outros para o clube tipo Flamengo, Fluminense.....aí eu quero ver se transmitem a série C e B ou não.

Anônimo disse...

Brito,
É impressão minha ou você realmente propiciou ao bar um faturamento maior que a renda do jogo???

Anônimo disse...

Muito bom. Parece até as histórias que estão no livro do Mário Magalhães e do Antônio Gaudério - ambos da Folha de São Paulo - "Viagem ao país do futebol". Precisas ler, tem até um causo que aconteceu com o meu glorioso Avaí.

Anônimo disse...

Muito boa, Dani! Vai bater recorde de comentários

Unknown disse...

O melhor post de todos os tempos da última semana!! Morri de rir com o comentário de seu Pedro, que figura!!!

Eu adoro Campina Grande, essa cidade é surreal!!

bjs.

Leandro Galvão disse...

Só uma humilde pergunta? Tu é doente por futebol ou é impressão minha?! Me admira você furar os nossos jogos no certame do Correio Braziliense e conferir a um espetáculo como esse, que conseguiu reunir 8 pagantes.
Por outro lado, tenho que admitir que foi uma excelente crônica. Acho que você quer derrubar Tadeu Schmidt no Fantástico. Né?

Sem mais para o momento...

Ederson Marques disse...

Briba, parabéns pelo texto gostoso. Agora, eu vi esse time do Nacional jogar no Serra Dourada, em Goiânia, contra o Vilate Nova do meu querido pai. O nível é muito baixo. Tinha uma cara (se não me falha a memória depois de sete copos de cerveja, o número 10) que não conseguia bater um escanteio sequer. Os caras erravam passe de 3 metros (isso co Corinthians tb faz) e pareciam sem preparo físico de tudo. Ao final, claro, Vila ganhou por 3 a 0 e subiu para a Série B do Brasileirão. No mais, sua crônica ficou 10. Parabéns meu nobre.

Anônimo disse...

"Acordo todas as noites empolgado, procuro minha mulher, mas ela parece que faz as coisas de má vontade. Eu já avisei a ela: 'arrume uma amiga, então...'
(!!!!!)"
AJUDAI SENHORRRRR!!!

Iêda disse...

Só tu mesmo!
Nessas horas percebo que vc e Ana nasceram um para o outro... hahahahah

ótimo Dani!
Pelo visto suas férias estão divertidas demais!

Paulinho Mesquita disse...

AauhauAHuahAUHauhaUAHuaHUA

Seu Pedro é rei!!

Muito bom DB! Ainda mais que tu "engordou" o natal dos donos do bar. Era td q eles precisavam nesse fim de ano...

Guga Marcondes disse...

GENIAL!!! E você fez uma puta matéria pro Correio, claro! Por isso sim vale!!! E, pô, poderia guardar os 14 conto pra chegar aqui! Nao enrola, vem logo! Abs

Guga

Anônimo disse...

Nessas horas a gente pergunta: cadê o dunga e o jorginho?
Abre o olho comissão técnica!!!

Anônimo disse...

Big Briba!
Pode mudar o perfil.. vc já aprendeu a escrever em blog.
Parabéns... vou tentar ser uma discípula ;)