quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Contramão do furacão

Eu fui na contramão do furacão.

Agosto de 2001, Gulf Shore, divisa da Flórida com Alabama.

Um engarrafamento cinematográfico na saída da cidade. As pessoas buscam um lugar tranquilo, seguro, afastado do furdunçu que se avizinha em forma de furacão. Milhares de sacos de areia cobrem as portas e janelas das casas, só um carro segue em direção à praia.

É nele que eu estou. Eu e mais umas pessoas que não me lembro bem quem.

É divertido ver as pessoas do lado de lá da pista nos olhando estupefatas. Nem a polícia vem atrás da gente para impedir o pior. É um passeio turístico. Temos a certeza de que nada vai acontecer a nós. Até porque não sabemos o tamanho do estrago que um furacão pode causar. Nosso gesto, inclusive, poderia ter soado como uma grosseria aos locais, por menosprezar o momento e fingir que nada demais está acontecendo.

Fomos ao pier. Um vento espetacular impede-nos até de respirar ou olhar para frente. Láááááá no horizonte uma mancha negra se agiganta. Ficamos por ali um tempinho, fazemos um filme de dois minutos falando da situação - filme este que nunca o vi. Saímos rapidinho e, burros, engrossamos as fileiras do engarrafamento cinematográfico.

Acompanhei assiduamente o noticiário local e ainda me lembro que o furacão se chamava Barry, chegou sem força ao continente, mas seus ventos ultrapassaram 150km/h. Deu um belo prejú a Gulf Shore.

Dizem os entendidos que os furacões mais brabos são os que têm nome de mulher, é o caso do Katrina, que esculhambou com Nova Orleans em 2005. Dizem os piadistas que esses (com nomes femininos) são iguais a mulheres no casamento: chegam quente e úmido e quando nos deixam levam tudo.

Anyway, dias depois, andando de carro com a minha tia pelo interior do Alabama, que até hoje mora por lá ensinando inglês aos merrrricanos, fomos surpreendidos pela tempestade tropical que acompanha a cauda de todos os furacões. Foi a maior chuva que já vi na vida. Paramos o carro no acostamento e esperamos por uma hora a chuva dar uma maneirada. Resquícios do Barry.

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Já se vão quase 10 anos dessa experiência, mas em tempos de carnaval me vejo de novo naquela cena do carro solitário e inocente indo ao encontro do furacão e o mundo fugindo. Mas neste caso a situação se inverte: enquanto o engarrafamento é em direção ao centro nervoso do furacão, as festas, meu carro segue sozinho para o lugar mais longe e calmo daquele furdunçu. O que deixa feliz de saber que estou na contramão do furacão.

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Começa hoje mais uma quaresma. Se for beber, não me chame.
(Antes de me criticar, a justificativa está aqui e aqui também)

Um comentário:

Paulinho Mesquita disse...

briba, o homem da quaresma!

ps: se for analisar suas matérias do CB dos últimos dias, até que você não fugiu tanto do olho do furacão, hã?