Nunca morei em quadras ímpares. Esta é a primeira. Sempre fui curioso com ela. Quando morava na duzentos e oito norte, fazia tesourinha e ficava olhando para uns monstrengos de concreto escondidos entre as árvores.
Sempre me pareceu uma quadra meio sombria, meio esquecida. Quadras do Plano Piloto com prédios antigos - e antigo aqui é qualquer coisa anterior a 1990 - são assim. E são as melhores, porque guardam o conceito de Lúcio Costa. A duzentos e oito, por exemplo, é sem graça, com poucos prédios, área verde chinfrim e ar meio abandonada. Talvez porque só tenha começado a ser construída em 1990.
Já a cento e sete é uma mistura do novo e do velho. Na entrada da quadra tem três prédios noventistas. Um não é retangular, mas quadrado cercado de varandas devidamente arborizadas. Muito bonito. Mais para frente na pista, vem um quarto bloco da década de 1990, longo e feio. Naquele estilo greco-goiano da Encol, Emplavi, essas construtoras vagabounds. Agora estão 'pastilhando' ele. É moda nos prédios noventistas pastilhar para 'valorizar'.
Todos eles têm nomes de gente, como se servisse de referência para alguém aqui em Brasília. Pior que é nome de pai de construtor (Residencial Geraldo Gonçalves da Costa), filha de empreiteiro (Residencial Maria Cecília), local paradisíaco (Residencial Menorca) ou então de grandes nomes da arte (Residencial Rembrandt)...que se vivo fossem não conseguiriam pagar para morar ali.
O meu nao tem nome, nem corre o risco de ser 'pastilhado'.
Num primeiro momento, ele é horrível. Parece um mausoleu com as persianas de concreto abertas de fora a fora. Em uma cidade qualquer, até mesmo na pequenina e heróica, seria um perigo, porque os larápios poderiam escalar o prédio apoiando um pé em cada uma das vigas de concreto e subindo até onde bem entendesse.
Por isso que eu digo que meu prédio parece esquecido. Nem os ladrões se atentam para ele. Ainda bem...
São três aqui na cento e sete desse jeito. Mas no hall de entrada você percebe que ele é diferente. PAra começar, azulejos de Athos Bulcão. Os apartamentos são espaçosos apesar de terem a mesma medida daqueles residenciais Monet pastilhados da Emplavi. A porta é grande e as paredes lembram a de uma repartição pública, tipo Escola Fazendária.
A cozinha não tem paredes que a dividira com a sala e, na sala, ainda tem uma parede solitária, que não se encontra com nenhuma outra e serve até para armar uma rede.
Descobri que um primo em segundo grau mora aqui no andar de baixo. Descobri que um ex-colega de trabalho e um ex-professor de Anapô moram neste prédio. Nas comerciais ainda tem o Beirute e do outro lado, na cento e oito, tem a Distribuidora, uma espécie de Souza do Quadrilátero Federativo, mas que só funciona até o final da rodada do futbeol e cujo dono é um dos caras mais mau humorados do planeta.
Ainda não tive a oportunidade de voltar bêbado para casa caminhando, tal qual na época do Souza e da saudosa Pompz, mas já fiz toda uma avaliação do terreno, nos passeios matinais e cansativos com Catôta pelos gramadões da cento e sete.
Excelente lugar para morar. O problema é pagar um milhão de reales pelo aluguel....
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2 comentários:
Os prédios do "Niemeyer" hoje em dia contrastam com essa nova realidade. Nas décadas de 60 e 70 todo prédio aqui nas Asas tinha pelo menos 150m² e alguns até 300m². Tinha muito incentivo pra morar em Brasília e muita gente com renda mediana vinha para cá e acabava morando num mega apartamento de quatro quartos + sala com três ambientes e DOIS quartos de empregada. Hoje em dia, nem os apartamentos de R$ 1,5 milhão com cobertura têm esse tamanho ou estrutura. Os quartos são sempre menores e quarto de empregada já não existe mais.
Em compensação, muitos desses prédios antigos (não é o caso do seu) tinham uns corredores compridos estilo Carandiru, bem horríveis mesmo.
Enfim, morei 27 anos da minha vida num prédio antigo, mas mais no estilo do seu mesmo, lá na 207 sul (hoje em dia uma das únicas quadras que não têm contraparte na norte). O prédio era quadrado, tinham quatro apês por andar e uma área enorme. Meu pai reformou o apê e mora lá hoje sozinho. MAs daria para botar umas 10 pessoas morando lá que ainda assim você teria sua privacidade.
Bem-vindo a mais uma residência, desta vez numa quadra muito interessante (tenho uma ex-namorada que mora aí e outra que acaba de se mudar, inclusive, pro SEU bloco) e com um comércio bem interessante.
O melhor: você está a 12 minutos a pé da minha casa. Em Brasília não é todo mundo que pode ir a pé pra casa do amigo, né?
Abs
essa quadra é boa demais. tem de tudo por perto. além do beirute e distribuidora, citados por vc, na 307/306 tem gordeixos, felicita, feitiço mineiro, dom bosco, sorveteria, talher brasil e tá mc'donalds.
e caminhando tu chega lá em casa tb. só leva bem mais q 12 minutos.
hehehehe
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