sábado, 22 de maio de 2010

Saudades do campo da favelinha

O maior problema desta casa parecia estar fora da casa. Havia uma favelinha, tipo uns 500 barracos, colada no muro. Aos finais de semana, o rap das perifa rolava forte pela madrugada e não deixava quem ficava do lado de dentro do muro dormir.

Mas cada um sempre ficou na sua, sem se meter na vida de ninguém.

A não ser que a bola caísse do lado de cá. É que a lateral do muro era como o alambrado para o campinho de futebol dos moradores da favelinha. De barro (ou seja, lama, quando chovia), traves de ferro chumbadas no chão, e dimensões oficiais, o campo era a atração principal dos finais de semana da galera da favelinha...depois do hip hop da madruga, oviamente.

Começava as 8h de domingo. Ônibus escolares chegavam apinhados de gente, kombis, fiat palio azul marinho modelo 1995, voyage prata 1989 rebaixado, traziam o resto dos times. Desconfio que eles faziam campeonatos, estilo calendário argentino.

A bola corria solta até 16h, quando começa a rodada do Brasileiro na TV. De 8h às 16h, a bola dos vizinhos caía do lado de cá do muro duas, no máximo três vezes por domingo. No sábado não rolava campeonato, era só pelada da molecada. E a bola não nos incomodava.

Aliás, mesmo que caísse aqui, jamais incomodaria.

Por ter guardado na memória alguns doces momentos de busca pelo campo perfeito para jogar futebol com meu irmão e os amigos nos gramadões recheado do barro vermelho do quadrilátero federativo, estaria negando minhas origens se me opusesse a um campinho (nada perfeito) próximo à minha casa. Mesmo que eu jamais pensasse em jogar com os camaradas.

Então toda vez que a bola caía aqui a gritaria do lado de lá era maior e era bom devolver a pelota rapidamente, como sempre o fizemos. No fundo, temíamos represálias, como pedras, pedaços de madeira voando pro nosso lado caso estragássemos a diversão dos vizinhos.

Pois bem.

A inocente favelinha e seu campinho enlameado estão morrendo. Localizado em uma das áreas mais caras de São Paulo, nossos vizinhos estão sendo remanejados, cada um com até 70 mil (preço que a prefeitura tá pagando para tirar as pessoas de suas casas), para outros locais regularizados.

Com isso, o que eram 500 barracos, são 150. O espaço das outras 350 casas já virou alicerce para um conjunto de "bussiness centers" megalomaníacos espelhados em estilo greco-goyano.

Já o campinho...bem, o campinho está sendo gramado. Placas de grama foram colocadas, mas as traves foram retiradas, tijolos são postos na lateral do campo, tratores fazem a terraplanagem, homens trabalham de 8h às 18h e o futebol já não rola mais aqui ao lado. Hoje mesmo, acordei assutado com o barulho do trator trabalhando perto do muro da janela, justamente onde ficava o bandeirinha nas peladas de domingo.

O campinho vai virar uma praça, um local para os bussiness-men dos bussines-centers espelhados fumarem e confabularem contra o engravatado que está no cargo imediatamente acima dos deles.

Nenhum comentário: