sexta-feira, 16 de julho de 2010

210 minutos na marginal

A primeira vez que olhei no relõgio na segunda feira foi um segundo antes de bater a porta do carro e calcular que até as 8h estaria de volta em casa. Eram 6h30. Da manhã.

Do desconhecido Jardim Panorama até Guarulhos são 44,5kms pela Marginal. Começa na Pinheiros, emenda na Tietê quando ela bifurca e também se torna Castelo Branco.

Mais ou menos como Brasília (eu disse mais-ou-menos), o fluxo da manhã na marginal é de leste para oeste. Eu disse mais ou menos como Brasília porque lá, como cá, o chaos tem um sentido só e não todos. Apesar de cá, em SP, haver carros (muitos!) para todos os lados. Mas ainda assim o fluxo é leste-oeste.

Como segui no sentido oeste-leste, percorri os 44,5kms em 40 minutos e lá estava eu na plataforma superior de Cumbica despachando Anapô de volta para SP. Um beijo de despedida, uma promessa de visita para dali a duas semanas, desejo de boa-viagem e volte-sempre, e uma nova olhada no relógio: 7h10.

Bom, se foram 44,5kms em 40 minutos, portanto, média de 60km/h e uns quebrados. Para mais ou para menos. Na saída do aeroporto, o dia ainda estava cinza, um pouco de neblina perto das poucas árvores. A pista de saída para voltar à Marginal, que lembra um pouco algum trecho do Lago Sul de Brasília, tem uma passagem estreita para chegar at'e ela. Havia fila de ônibus fretados. Eu não sabia e furei fila. Acenei com a mão e o motorista de trás, com o pé no freio, parece ter compreendido porque respondeu com uma buzina curta e simpática.

Passados os hoteis dos comissários, passada a entrada para Ayrton Senna com uma multidão de carro espremida, chegou a entrada para a Dutra, que me levaria ao encontro da Tietê, de lá, Pinheiros.

Muito carro, muita gente, muita moto (motoqueiros parasitas-barulhentos), mas o trâfego fluía. Cada quilômetro era importante. Sabia que aqueles 45km/h até a ponte do Tatuapé eram uma fraude. Porque quando cheguei ä altura da Fazendinha ...ou era do Canindé, náo me recuerdo agora, a engrenagem parou. Já eram 8h.

Tirei o casaco, já não havia neblina sobre o rio, já não dava para perceber o cinza da manhã. Sol, céu aparentemente azul. Daqui de baixo, temos a impressão de que o céu está azul, mas é do alto que vemos aquela capa escura de fumaça provocada pelos carros e pelos congestionamentos de horas na marginal, e decobrimos que o céu é mais azul do que parece lá de baixo.

Nesse dia eu colaborei para esconder a cor natural do céu.

Fazia calor porque havia 19 dias que não chovia em SP. O inverno frio chegou há dois dias, contando de hoje, aqui. Preferia que estivesse frio. Porque minhas costas começaram a suar. Não havia mais música que me agradasse nos cds do carro em que estava.

Tentei colocar na rádio. A única emissora que pegava bem, porque o rádio é ruim, era a Transamérica. Esses programas da manhã, metidos a engraçadinhos, discutiam a diferença entre se casar e se juntar. Ouvi por longos minutos.

Tirei a sandália -- eu dirijo de sandália -- e comecei a sentir dores no joelho. A velocidade da Marginal é de no mááááximo 90 km/h. Alguns trechos permitem que cheguemos aos 110km/h. É uma tremenda ilusão. É igual Ministério do Trabalho no Brasil, país com 13 milhões de desocupados. Ou Ministério do Combate à Fome na Somália. Desenvolvimento Social no Sudão...essas cousas.

Levando em considerasação que o ponteiro dos carros começam em 20 km/h, eu andava numa velocidade de 19km/h. Ou seja, mais lento do que todos os carros podem computar.

Aos 19km/h nào dá tempo nem de desligar o carro, nem de acelerar devagarinho mas constantemente. O intervalo entre a parada e a nova acelerada não cabia em segundos, minutos, silésimos (palavra minha mesmo)... Então a posição da perna direita me doía o joelho. Lembrei-me de Geraldo Fonfom, grande motorista e um mestre na arte de viver feliz lááá na saudosa pequenina e heróica.

Fiquei com vontade de chorar.

Já passava das 9h. Havia quase três horas que eu saíra de casa. Anapô não conseguira embarcar no horário. Previ que ela se encontraria primeiro com Catôta e Reméla na Asa Norte do que eu com a minha cama, no Jardim Panorama.

Discutimos. Disse a ela que nunca mais, mas nunca mesmo, marcasse vôos neste horário. Se não houver opção, que passemos, pois, mais um final de semana sem nos vermos.

Ela reclamou. MAs em seguida, antes de embarcar no vôo atrasado, me mandou uma mensagem pedindo desculpa. Se fosse ela no meu lugar, eu já não estaria aqui para contar a história...anyway

Pensei que pudesse estar sem andar. Então resolvir marcar meus vizinhos. Ao lado, um Classe A azul Marinho com uma morena ao volante. Atrás, um carro de entrega de peças, à frente, um Fiat Brava. Na terceira faixa à minha esquerda um ônibus da Brasil Sul, "único com wi-fi on board".

Volta e meia me perdia dele. Desconfiava que o Brasil Sul, "único com wi-fi on board", estava andando mais rápido que todos nós (eu, o Classe A, o Brava e o carro das peças). Esbocei uma ida à faixa da esquerda e xinguei o taxista que me ensinou a tática de ficar na faixa mais próxima do rio para andar mais rápido em engarrafamentos na marginal.

Descobri que as pessoas são solidárias no congestionamento. Ninguém tenta furar a fila do outro. Ninguém rouba lugar de ninguém. Todos ficam como estão à espera de um milagre, de que a pista simplesmente ande.

Preferi ficar encostado na mureta que separa a pista do rio podre. Já havia perdido o senso de localização. Até que avistei o Brasil Sul, "único com wi-fi on board". Descobri que havia vários ônibus Brasil Sul, "único com wi-fi on board" e que talvez eu estivesse os ultrapassando com a táctica do taxista.

Fiquei feliz.

Resolvi entrar na internet do meu celular do high school musical. Acessei ao cbet e vi os coments. Pensei que Anapô poderia estar chegando em Brasília e eu acabara de dobrar o cabo da boa esperança e saíra da marginal tietê para a Pinheiros. Como já eram quase 10h da manhã, não havia trânsito...pff, não havia transito...havia espaço de dois ou três metros entre os carros.

Daí, meus companheiros de cela, o Brava, o carro das peças e o Classe A, começaram a lutar por espaço. Percebi que a solidariedade só existe no caso extremo e resolvi partir para o ataque. COmo em um river raide da Marginal Pinheiros, costurei carros, caminhões e ambulâncias, motos e carroças, a incríveis 50km/h.

Já havia me esquecido que costumo ser um cara consciente e defensivista no trânsito, só pensava que não podia chegar em casa às 10h, 210 minutos depois de planejar chegar às 8h em casa.

Mas foi o que aconteceu. Duzentos e dez minutos depois de sair de casa na manhã da última segunda, 89 quilômetros depois, lá estava eu em casa, estacionando o carro e pensando...isso vai dar um texto pro blog.

3 comentários:

Felipe disse...

Cara, por isso, por mais que nego fale, que apresente vantagens, eu NUNCA, JAMAIS vou morar nessa cidade - a não ser que more do lado do metrô e meu trabalho fosse chegável de metrô. Imagina quem passa duas horas por dia dentro de um carro aí. Na semana são dez horas. É tempo pra caralho. Dá pra voce começar a pensar em instalar wi-fi no carro, levar um videogame, livros, lounge, etc.

PS: Semana passada eu dobrei o Cabo da Boa Esperança. Literalmente.

RC disse...

Chego a gostar de Brasília quando leio esses relatos sobre São Paulo...

Lembrei disse...

nada como a paulicéia desvairada. literalmente. daqui duas semanas chego de novo e mato minha saudade de sp. se prepara pro percurso até o aero :)