quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Bertholletia excelsa (Bolivian Nut)

A castanha do Pará é um alimento ludibriador.

Primeiro porque, nem do Pará é. Diz a lenda que a castanha do pará so existe na Amazônia. E mil anos atrás, a amazônia brasileira era toda chamada de Pará. Mas onde essa iguaria abunda é lá pras bandas do Acre e mais pra lá do oeste.

Fora do Brazil, chamam a castanha do Pará de Brazilian Nut. Acontece que o maior exportador de Brazilian Nut é a Bolívia. Mercadologicamente falando, talvez seria melhor que se chamasse Bolivian Nut. Até para passar a ideia de que quem comer ficará doidão...como alguns produtos típicos do incrível e hospitaleiro país vizinho.

A castanha é capaz de manter uma aparência saudável mesmo estando podre e imprestável por dentro. Só depois que as primeiras partículas atingem as partes mais profundas das papilas gustativas você percebe que comeu uma castanha podre.

Daí, já era: vai ter que passar pelo constrangimento de regurgitar e fazer careta. Por isso, aconselha-se severamente a comer castanhas sozinho ou na companhia de pessoas íntimas, que não se assustariam com seu asco.

As primeiras lembranças que tenho de Bolivian Nut remetem aos late 80's. Na despensa de uma casa na Rua Dona Etelvina Batista, quase esquina com a Rua Professora Cacilda Breckenfeld, no Jardim São Paulo, em Recife.

Na casa dos meus avôs, onde passei todas as minhas férias dos 4 aos 14 anos, uma das diversões era quebrar a casca da Bolivian Nut na dobradiça da porta da despensa e, oviamente, comer a castanha.

Eu, meu irmão, minha irmã, meus primos, fazíamos até dar dor de barriga ou alguém prender o dedo na porta e desistir da brincadeira, Daí a gente tinha de decidir o que fazer em seguida, o que poderia tanto ser comer carambola, ou procurar pés de jambo lotado, jogar bola no paralelepípedo e/ou visitar os tios e agregados que moravam todos num raio de 500 m de distância da Rua D. Etelvina Batista. (Não lembro o número da casa, acho que era 25)

Passaram-se 15 anos e voltei a comer a Bolivian Nut.

Agora ela vem em uma caixinha de plástico e contada em gramas. No tempo da casa da minha avó, era dentro de uma saca de 15 quilos tipo aquelas de café ou soja ou sei la mais o que. Ficava dentro da despensa, ao lado dos côcos que meu avô comprava para encher a cara das visitas de uísque, e de outras frutas da estação: caju, manga, goyaba, pitanga, cajá (essas, para comer mesmo, ou para servir como aperitivo para uma lapada de cachaça depois do almuerzo).

Hoje, eu teria que rodar um bocado por SP para encontrar um lugar em que se venda castanha com casca. Elas vem encaixotadinha, ao preço de 50, 60 reais o quilo e descascadas, com aquela mesma aparência ludibriadora.

Como descem lá do Acre, talvez até da Bolívia, num trajeto de três ou quatro mil quilômetros, chegam em SP mais para lá que para cá: mezzo podres, mezzo mais-ou-menos. Mas a aparência de quem tá ótima para o consumo.

Eu voltei a comer a Bolivian Nut, após um hiato de 15 anos, atendendo a pedidos da mulher que me passou a receita para emagrecer (ismagrecer, como ainda se diz lá pras bandas de Jardim São Paulo).

No meio da tarde, no olho do furacão, com as atividades na firma pegando fogo, é curioso associar o sabor da castanha, mesmo que apodrecida, da infância a um ambiente completamente diferente do da casa na Etelvina Batista.

2 comentários:

Felipe disse...

A Apex-Brasil tem projetos com cooperativas qeu exportam castanha do pará - ou melhor, castanha do Brasil.

Estive recentemente em Santarém e, de fato, la´tem castanha pra caramba. A um preço 40% menor que encontramos por aqui. Uma jornalista francesa rodou a cidade inteira (era tarde da noite quando chegamos) e conseguimos, enfim, comprar quilos da castanha com ela.

Eu nao curto muito nao, mas tem uns nutricionistas aí que dizem ser saudavel.

A conferir nos próximos dias se a castanha da bolívia é mesmo igual à do Brasil.

Cordialmente.

Lara disse...

Naquele famoso episódio dos Simpsons em que eles estão no Brasil, numa cena onde o Homer é sequestrado, os caras estão comendo "brazilian nut". Quando o Homer pede uma, o cara vira pra ele e diz "Idiota, aqui nós só chamamos de 'nut'".