quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Cena da cidade II

Já era mais de 1h de la mañana e a criancinha chorava sem parar. Fazia frio. Era daquelas noites caprichadas de vento e frio.

Na casa imediatamente ao lado, um cachorro, misto de beagle com poodle ou sei la mais o que, chorava ainda mais alto. Talvez por isso a criança, de um ano e pôco, não conseguisse dormir.

O dono do cachorro, que sacanagem, deixara o bichinho do lado de fora de casa, e os ganidos acompanhavam o uivo dos ventos cortantes. É difícil até pensar numa maldadade dessas.

No desespero, o pai da criança levou o bebê para fora de casa. É um condomínio fechado, com 38 câmeras de segurança, cerca elétrica. portão antipânico, e tudo o que um condomínio paulistano demanda.

Não se sabe o que esse pai pensou, mas ele devia acreditar que, ao tirar a criança de casa, ao passear com ela pelos ladrilhos do condomínio, ela ficaria menos estressada, as outras pessoas da casa poderiam engatar no sono e a criança, como que por miraculo, também dormiria em seus braços, mesmo sob frio de 10, 11 graus.

Ao botar o pé para fora de casa, o pai da criança viu o pobrezito do vira-lata do vizinho agonizando no frio, com aquela cara de cachorro molhado, confinado entre a porta da cozinha e uma gradezinha na ponta da garagem, em um espaço semiaberto do tamanho das kitnets mais caras de brasília.

Não se sabe também porque cargas d'água o pai da criança também resolveu colocar o cachorro para passear no frio. Talvez pensando que a tática aplicada para o filho dormir também resolveria o problema do frio do cachorro.

Qual não foi a surpresa dele quando abriu a gradezinha da garagem e o vira-lata disparou em direção ao portão do condomínio. Com a criança no colo quase pegando no sono, sem saber o nome do cachorro, sem poder gritar devido ao adiantado da hora, o cara ficou desesperado.

Correu com o filho nos braços em direção ao portão, viu o cão passar pela frestinha da saída e sumir na direção da favela, vizinha de muro do condomínio. Foi então que o camarada voltou em casa, deixou a criança, que ainda não tinha dormido, correu para a porta da favela e foi tentar buscar o cachorro.

A prudência recomenda não entrar em uma favela, por mais amigável que seja, sozinho, de madrugada, andando aleatoriamente sob a justificativa de procurar um cachorro que nem o nome é sabido. Ele decidiu voltar para casa. Não conseguiu dormir. Nem a criança.

Às 6h30, quando o dia já estava claro, lá estava ele de novo, na porta da favela, na ponta dos dedos, à procura do cachorro.

Para seu alívio, apareceu a empregada da casa vizinha (a casa do dono do cachorro) com o vira-lata na mão. Descobriu ali que o cachorro tinha parado na porta da casa dela. Ela ouviu os arranhões desesperados do cachorro na sua porta e correu para abrir. Deparou-se com o cão do patrão. Imediatamente ligou para ele e avisou:

- Desculpa ligar a essa hora, dotô, mas seu cachorro tá na porta da minha casa.

Ninguém entendeu nada ali. Mas ela prometeu que apareceria com o vira-lata de manhã cedo na casa do chefe.

Quando a moça cruzou com o vizinho do patrão na boca da favela, já de manhã cedo, é que a história toda se completou.

Os dois vizinhos, que antes não trocavam mais que um aceno de mão quando se cruzavam no condomínio, passaram a não se falar mais. A empregada confessou ao patrão que, quando ele não está, ela leva o cachorrinho para favela. E ainda disse que a sorte é que ele não é de raça, porque se fosse, teria sido raptado e vendido na favela ou feito de churrasquinho no tradicional futebol com funk no campinho à beira da marginal aos domingos.

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