segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Midnight in San Francisco

Um irlandês que conheci no trem de Cuzco a Machu Picchu me disse, certa feita, que o verdadeiro pub é aquele em que não se serve comida. Só bebidas. Mais legítimo ainda são aqueles que não se permite a entrada de mulheres.

O Vesuvio Cocktails, na Columbus Avenue, cumpre com 50% das exigências irlandesas. A única opção aos clientes que ali se sentam para conhecer a casa é bebida. 
Foi numa dessas que o poeta beatnick Jack Kerouac, aka Sal Paradise, degradou seu fígado enquanto morou nas cercanias de Nob Hill, em San Francisco. Mas isso foi pelos idos dos 50's.


Só sua presença no local há mais de cinco décadas transformou o Vesúvio em um ponto turístico tão essencial quanto a Lombard Street. Não apenas o Vesúvio itself, mas o beco que dá acesso à Columbus.

O que me leva a crer que Jack deve ter tombado bêbado, trôpego, arrasado diversas vezes no bequinho que liga a rua tomada por bares em neon a Chinatown franciscana. Daí a razão de a passagem não ser mais chamada pelo seu nome de batismo, Adler alley.

Só aí, eu já tinha motivos suficientes para conhecer o Vesuvio. Quando fui pesquisar, para saber se não era um programa pega-turista, me deparei com a notícia de que a revista Esquire (ou foi a New Yorker) elegeu o Vesuvio um dos melhores bares dos US em algum ano passado.

Segurei o sono, inimigo feroz dos que saem do Brasil nesta época do ano para a Califórnia e se veem obrigados a atrasar o relógio em seis horas. É preciso uma semana para aguentar firme à noite no golden state, o que não era meu caso.

Mas esperei o relógio marcar 21h em San Francisco para caminhar da Jones Street em downhill até a Columbus com o beco do Jack. À direita na Califórnia, desce-se até a Pacific, caminha-se por Chinatown, nunca em frente às lojinhas bunitinhas e decoradinhas, mas aos açougues, aos apartamentos sujos e federentos mesmo para quem passa na calçada do outro lado, aos chineses com cara sofrida descem do ônibus em direção à casa, aos panfletos que voam pela rua, ao carro de polícia que passa com sirenes e luzes estroboscópcias ligadas, o que dá um ar ainda mais cinematográfico à caminhada. Foram 900 metros.

O Vesúvio tem seu nome grafado em vitral e ouve-se o burburinho de dentro antes mesmo de se avistar a porta de entrada. Casais com vestimentas descoladas e amigos bêbados fumam algo em frente à porta.


Pensando bem, o Jack Kerouac alley se deve mais do que às ressacas do poeta no local. Porque  exatamente em frente ao Vesuvio se encontra a famosa City Light, livraria que também alimentou e inspirou Kerouac e outros poetas beats dos 50's. Então ali seria um ponto onde eles se completariam.

Com 15 minutinhos de caminhada, com parada para fotos, entrei no Vesuvio. O bar parece não ter uma luz acessa. Parece ser iluminado por velas, o que não é verdade. Ë escuro, pouco se vê o que há lá dentro, a menos que se force a vista. Portanto, não dá para levar Big Sur e ler lá dentro enquanto se faz agrados ao fígado.

O térreo estava completamente tomado por grandes grupos de amigos (qualquer grupo com mais de três pessoas já é considerado grande para o Vesuvio). Fui ao mezanino. Nas paredes, cartazes com fotos de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William S. Burroughs. Há dois camarotes nas pontas do mezanino. Em um deles se lê: "Espaço para a sra. psiquiatra".

O público do Vesuvio daquele dia em nada tinha a ver com o de sessenta anos atrás. Mauricinhos, estudantes barulhentos com roupas de hip hop, bombados trajando camisetas incompatíveis com o frio de 10 graus do lado de fora do bar, e alguns casais mais quietos. Não havia turistas, o que desmente a minha tese de que o Vesuvio é tão visitado quanto a Lombard Street.

O cardápio está recheado de drinks. O drink Kerouac leva tequila, rum, morango e mais alguma outra fruta. Preferi as cervejas.

São oito opções. Comecei na Anchor Steam, uma cerveja de San Francisco muito boa e forte.


À medida que ia bebendo, ficava vidrado nas mesas e nas portas, à espera de ver, sei lá, um vulto que fosse do bêbado Kerouac. Olhava para o balcão e só via um atendente mal humorado. Passei para Guinness, que não é uma das minhas preferidas, mas tinha o intuito de me sentir como o próprio Gil, de Woody Allen, perdido na noite franciscana.

Teria sido mais fácil entrar no Recession Special, que consiste em uma lapada de Old Crow, um bourbon do meio-oeste americano, com 40% de teor alcoolico, somado a uma Budweiser.

Fica-se bêbado por $4 com o kit da recessão.


A cerveja, aliás, é o único sinal de Americanismo-Imperialista-Consumista em estado bruto oferecido pelo pub. Não há tvs ligadas em jogo de american football, nem buffalo wings e nem tampouco double cheesebanconbuguers e nenhum outro tipo de lanche. O Vesuvio é quase um pub irlandês, em que só se serve bebida. As mulheres têm entrada livre, contrariando o irlandês em turismo em terras Inca.

Depois da Guinness, o sono começou a bater. Cogitei o Recession Special, mas temi pela volta para casa a pé pela terra dos chineses. Voltei à opção de segurança e pedi uma a heffenweizer bier, que nos US serve-se com uma rodela de laranja presa ao copo.

Acreditei que com um pouco de sono somado às cervejas mais fortes seria mais fácil cruzar com Ginsberg ou Kerouac, ou até mesmo Janis Joplin, que era de outra turma, e morava para outras bandas da cidade. Talvez com Robert Plant, que era assíduo frequentador de San Francisco, embora não haja fatos que comprovem sua presença no Vesuvio.

Mal consegui terminar a heffenweizer bier pq tombei de sono na mesa. Foram dois ou três minutinhos de pescada. O suficiente para a garçonete me cutucar:

- D' like something else to drink, sir?

Pedi a conta.

Eram 23h39, ou seja 5h39 da manhã do dia seguinte no Brasil.

Limpei os olhos, dei um último e grande gole na cerveja de trigo com laranja, sobraram pelo menos três dedos de cerveja no copo. Deixei vinte dólares na mesa, com gorjeta incluída. É quase metade do que Jack Kerouac saiu de casa em New York, sessenta anos antes, e deu origem ao On The Road, onde começou toda essa história.

3 comentários:

Pedal Musical disse...

Post sensacional, Briba! Me vi nessa história escura, solitária e reflexiva. Abraços! Ronaldo

berna beat disse...

uh. eu tb fui no vesuvio. mas fui de dia. que eu sou fake. me arrependo de não ter comprado nadja na city lights. quando passei pela jack kerouac alley, tinha uma menininha chinesa duns cinco anos de idade, ali de cócoroas, a pagar um mijones no meio da rua. enquanto a mae dela esperava na calzada, carregando uma sacola de compras. achei très cool.

Leandro Galvão disse...

Totalmente excelente! Mesmo com os mauricinhos e manos que destoam do ambiente, deve ser um lugar muito bom para tomar umas geladas e dar umas dormidinhas depois de trôpego.