Só conheço duas pessoas que gostam de participar de pesquisa de opinião.
Uma delas está aqui, agora: eu mesmo.
Desde que mudei-me para crack-o, caminho regularmente pelas ruas e pelo vale da morte (Anhangabaú) e vejo homens e mulheres com sofreguidão abordando transeuntes que possam participar de pesquisas. Poucos se dispõem a interromper o que estão fazendo para ajudar.
Uma situação que me lembra muito as baladinhas juvenis, em que os garotos passam a mão no cabelo das minas, assobiam, fazem piadinhas para chamar a atenção e tentar dar uns agarros.
É preciso uma boa dose de cara-de-pau para isso, porque tanto a cantada como a requisição para participar de uma pesquisa não são exatamente algo esperado por qualquer um. Daí, é fácil assustar-se com a abordagem e fazer cara feia com o pobre do pesquisador ou o fdp do galanteador.
Comigo, passar cantadas relâmpago nunca funcionou. Mas ser parado por um pesquisador, sim. Ao ponto de eu mesmo parar um pesquisador e me oferecer para fazer pesquisa.
Já dei pitaco sobre carros populares e de luxo, celulares e os homens azuis da TIM, geladeiras e outro produto que eu não identifiquei o que era, porque as perguntas eram muito variadas. Além de ter tido a participação vetada uma pesquisa sobre cervejas, três anos atrás (olha aqui),e em outra, esta em Brasília, sobre direitos humanos.
Numa dessas mais recentes, ali na Praça da Repúblika, uma mulher me mandou entrar no elevador. Fomos a um mezanino de um prédio antigo ali mesmo. Entrei numa sala que parecia um pouco uma sala de massagens eróticas, misturado com um estúdio de TV. A mulher me mandou lavar os dois braços com aquele sabão líquido que estava ali, sem rótulo. Lavar os braços até o cotovelo.
Por alguns minutos, imaginei que pudesse estar participando de alguma pegadinha.
Não era.
A mulher me borrifou três perfumes nos punhos. E pediu, com sotaque paulista do interior, que eu os analisasse.
"Numa escala de 0 a 10, na qual zero é discordo totalmente e dez é concordo totalmente, você pode dizer se essa primeira fragrância transmite a sensação de:
a) poder
b) sedução
c) confiança
d) liberdade
e) conforto
f) segurança
g) erotismo"
E por aí seguia.
Eram uns 15 ou 20 adjetivos para os quais eu tinha que dar nota. Para cada um dos três perfumes. Ainda tinha que avaliar as peças publicitárias dos perfumes e os esboços dos frascos. Era uma pesquisa demorada.
Aprendi que não se deve ficar dando nota alta por aí a torto e a direito, porque vai passar a impressão de que está tudo perfeito, quando não existe nada perfeito neste mundo.
Eu comecei dando 6 e 7 nas notas, até começar a me encher o saco, e o cheiro dos perfumes me causaram uma puta dor de cabeça e eu comecei a dar notas desencontradas tipo 8 para sedução e 2 para erotismo, quando as duas coisas caminham juntas, e a mulher, coitada, se tocou que eu já não aguentava mais. A minha cabeça explodia, principalmente porque eu teria que passar o resto do dia com aquela essência ali impregnada nos pulsos.
Ao final, ela me deu uma caneta com a marca do instituto de pesquisa como prêmio de consolação pela participação e me acompanhou no elevador de volta à Praça de la Republica. Ao nosso lado, um camarada com os braços igualmente perfumados. Ele também se submetera ao teste. Nos despedimos da mocinha da pesquisa, e ele me falou, já no térreo, antes de entrar pelo buraco do metrô:
- Que instituto vagabundo, só dá uma caneta. Bom foi o dia que fiz uma pesquisa de aparelho de celular me deram 15 reais de crédito da Claro.
Ele é o segundo cara que conheço que mais gosta de participar de pesquisa de opinião.
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