Parecia uma miragem: Catôta rodando no ar, agarrada pela coleira por um bêbado trôpego, e arremessada com força aos ladrilhos do Vale do Anhangabaú.
Aconteceu há pouco, no passeio matinal pelo centro da megalópolis.
Eu estava distante, corria entre uma ilha de grama e outra do vale, à espera da Catôta, que só consegue se divertir em cima do relvado. Ela usava a coleira, que é como umas tiras de colete, mas estava solta da correia que a prende ao dono. Quando olhei para trás, esperando que ela estivesse correndo junto a mim, lá estava o bêbêdo trôpego a agarrando.
Dali, o mundo deu oito mil voltas em silésimos de segundos. Num primeiro instante, pensei que seria uma gentileza do bêbêdo trôpego, porque no exato momento que foi agarrada pela coleira, Catôta comia algum resto de galeto largado por outro bêbêdo trôpego no chão do Anhangabaú.
Para repreendê-la, costumo puxá-la pela coleira. Uma leve estrangulada, é para isso que servem as coleiras, é uma espécie de castigo leve por apanhar detritos e outros tipos de porcarias do meio da rua. No auge da minha fé na bondade alheia, imaginei que o bêbêdo trôpego estava impedindo Catôta de comer os baguio podre.
Que nada.
Ele a levantou, Catôta soltou imediatamente o pedaço de cabeça de osso de galinha da boca, e chorou alto e diferente do que costuma. O bêbêdo trôpego a alçou à altura da cabeça, rodou na posição de cabeça para baixo e a arremessou com força em direção ao chão do Anhangabaú.
Durante todo esse movimento eu não podia crer no que via. Antes que ele a rodasse no ar, imaginei que ele fosse roubá-la. Os habituès do Anhangabaú contam histórias de drogados que roubam cachorros para trocar por pedras de crack. Pelo estado do bêbêdo trôpego, seria difícil ele carregar no colo a Catôta por mais de dois metros. Até porque eu já corria em sua direção.
Corria e gritava como um louco, xingando e fechando a mão, para esmurrar a cara do fdp.
Naquele fração ali, me lembrei: 'Porra, quando foi a última vez que dei um murro na cara de alguém?'
Bueno, vamos voltar ali a 93 ou 94, quando briguei com o João embaixo da janela da minha casa, na 310 Sul. Mas não me lembro se cheguei a dar um soco na cara dele. Provável que eu tenha levado. Até porque, o João, anos mais tarde, virou um profissional das ruas, e chegou até a estourar o nariz do irmão, o Rayhan (clique no nome para recordar de sua última passagem por este blog), em uma briga dentro de casa.
Somado à inexperiência em brigas de rua, lembrei que estava na casa do bêbêdo trôpego. Qualquer coisa que eu fizesse ali, o fdp da história seria eu. Ele estava rodeado de outros bêbêdos trôpegos, não ali na hora em que levantou a Catôta, mas ali nos degraus do Anhangabaú, enchendo o rabo de cachaça. Mesmo que eu acertasse uma mãozada na boca do doidão e ele caísse estatelado de cara no ladrilho caliente do centro, eu seria cercado e teria que prestar contas a seus amigos, que, muito provavelmente, não estariam dispostos a me ouvir.
Cheguei ofegante e me agachei para abraçar a Catôta, que já estava recomposta e abanando o rabo. Apontei o dedo na cara do bêbêdo trôpego e mandei ele tomar no cú, chamei-o de 'filhadaputa, maconheiro, sem vergonha, organizou a rockonha, fez todo mundo dançar...'
Nada que o afetasse, porque ele respondeu com umas palavras sem pé e nem cabeça, com os olhos esbugalhados, a camisa amarela, estilo pólo, toda cagada, e ele completamente suado, parecia que havia saído de uma corridinha debaixo de chuva. Nem mesmo um soco na cara faria diferença desse maluco.
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3 comentários:
Porra, bilica. Teve uma serenidade tibetana na hora do bafafá, hein?
White!
it's good to have you back
Serenidade? Pfff. Cagou de medo de apanhar, isso sim. A idade traz essa prudência, Brito.
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