Era um bando de babacas (dai o nome jackass) fazendo coisas absurdas como descer ladeira abaixo dentro de um carrinho de supermercado, cortar-se com folhas de papel, enfiar carrinhos de brinquedos em buracos apertados e fedorentos do corpo e outras maluquices.
Pois eles seriam machos de verdade se fizessem o que eu imagino um dia fazer dentro um congestionamento.
(Jamais farei, adianto)
Simplesmente, atravessar o carro entre duas faixas em plena 23.05 e aguentar todo o som e toda fúria dos motoqueiros e suas buzinas amestradas.
Por mais incrível que possa parecer, são eles, os motoqueiros, quem mantem os grandes congestionamentos na linha. O fato de ocuparem o pequeno espaço entre uma faixa e outra faz com que nenhum engraçadinho fique pulando de uma pista para a outra em busca de um caminho mais rápido para fugir do chaos.
Assim, as avenidas de SP parecem uma grande correa dentada de uma engrenagem megalomaniaca que fazem a cidade mover-se adiante, ainda que lentamente. Quando uma daquelas peças foge do sincronia, esbarra nos maiores bedeis desse mecanismo, os motoqueiros. E a cidade bate recorde de congestionamentos.
Eles não toleram erros, deslizes, manobras ousadas ou criativas.
Dia desses vi um erratico citroen com placas de Brasília na pista local da Marginal Pinheiros. Deu seta para a direita, mas movimentou-se para a esquerda, quando tentou voltar para o lado que pretendia ir, foi cercado por motoboys. Um retrovisor foi chutado com força que caiu no asfalto e foi atropelado pelos demais integrantes da correa dentada que vinham atrás; outro bedel ficou gesticulando e, provalvemente, xingando a pobre da moça perdida dentro do próprio carro.
Os motoqueiros não toleram o sinal da seta. Se você está quieto na sua faixa, mas sua seta está ligada para la ou para cá -- mesmo que você nao queira ir nem pra la nem para ca e você simplesmente esqueceu de desligar a seta -- eles vem desde os 100 m anteriores aa traseira do seu veículo até seu janela buzinando louca e desesperadamente para chamar a atenção que ele, o bedel, motoqueiro implacável e fiscal das faixas, está passando ali e você não se atreva a se meter na frente dele. Porra!
Às vezes, dá-se a seta e tenta-se ir para o lado, -- porque nem sempre os cálculos das ruas dão certo, não é verdade? -- aí, companheiro, os motoqueiros businando, xingam, gesticulam, quebram o retrovisor, e talvez o pior, assusta o insolente motorista com um barulho no exato momento em que passa ao lado da janela do carro. É um estampido idêntico ao de um tiro de revólver, que mata até o motorista mais acostumado com tanta repressão.
Dito tudo isto, acrescento que convivo nos últimos nove meses com 2h de trânsito diário e vou me aperfeiçoando a fugir da linha para buscar alguns centímetros na jornada diária para tão somente chegar ao sirviço.
Finjo-me de morto ali, na minha faixa, trabalhando honestamente para a a rotação do motor da cidade não parar. Olho no carro da frente e olho nos retrovisores, meus grandes amigos. Aprendi a mudar de faixa no intervalo de 10 segundos entre uma tsunami de motos e outra.
Daí faço com a destreza de quem fugia do amigo quando se brincava de pique-esconde na infância: quase na ponta dos pés, sem fazer barulho, prendendo a respiração, prolongando os segundos, acelerando o suficiente para chegar ao outro lado a tempo de não ser alcançado pelos mal humorados motoqueiros nem pelo carro que vem imediatamente atrás.
Até agora, obtive êxito.
Tanto é verdade que estou aqui dando meu tistimunho.
Se for o caso, posso até chamar meus retrovisores para ratificar tudo o que eu disse.
Um comentário:
Poucas vezes li uma crônica de engarrafamento tão boa (e tão enervante).
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