O motorista de um caminhão de entrega deu o azar de ir trabalhar sem o uniforme da firma no dia que tinha uma encomenda para entregar em uma favela.
Logo na entrada, o caminhão foi parado, mandaram o cara descer, ele levou uns belos tabefes até as pessoas que comandam o local acreditarem que ele era realmente um motorista de transportadora e não um tira aa paisana querendo se infiltrar na comunidade.
Tiras até podem entrar ali. Desde que sejam os mesmos que vão lá na boca da vila pegar o din-din semanal e garantir a paz e a tranquilidade do local.
Assim, crianças de 10 ou 12 anos podem brincar com as armas dos moradores, os malucos podem entrar lá para comprar toda espécie de psicotrópicos e alucinógenos, e a favela se sustenta e mantém-se em paz assim.
Às vezes, eles armam de dar um bote grande lááá do outro lado da cidade. Voltam com computadores, telões de plasma, celulares, carros, tudo bonito e caro. Para não receberem as visitas dos tiras que não participam da comunidade, promovem um feirão.
A dona riquinha, que mora no condomínio perto da favela e emprega em casa um morador dali, sabe os dias de feirão e bate lá para atualizar seus gadgtes por $30, $ 50 ou até $ 100...Tudo novinho e funcionando perfeitamente.
Ela jamais perderá seus bens recém-adquiridos, porque na favela o que se diz é que se for para roubar, que seja longe de casa e não nos condomínios limítrofes.
Com a grana do feirão, o patrão da comunidade descola mais psicotrópicos e alucinógenos para vender e mais armas e munições para proteger seu território. Não é grande. Já foi.
Mas o crescimento insustentável da cidade tira o pessoal da vilinha. Inclusive os chefes do local. Um mega empreendimento - feito por gente que tem potencial para ter seus equipamentos eletrônicos e carros dispostos nos próximos feirões da favela - está pagando tipo assim, uns $ 50 mil por casebre e a mudança paga para onde quer que o morador queira ir.
Em breve, ali será mais um prédio luminoso, ou um shopping center sem entrada para pedestres. Assim, a dona riquinha que comprava no feirão sem medo de ser importunada, pode virar alvo, já que não será mais vizinha da favelinha.
Enquanto o processo de mudança não se completa, a vida continua normalmente na favela, com seus jogos de futebol no domingo o dia inteiro, seus dindins semanais aos tiras, o poder paralelo e suas próprias regras, seu livre comércio, sua convivência cínica com os vizinhos, e seus ataques esporádicos no outro oposto da cidade...
Não tô falando de um lugar específico de São Paulo. Rola isso em toda cidade grande e normal do Brasil. Brasília não se enquadra nesta categoria, diga-se.
Pode ser no Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Manaus, São Paulo. Do lado da casa do seu chefe, do prefeito, do deputado ladrão, da sua mãe, irmão, tia, sua casa ou do lado da minha casa!
2 comentários:
Quando for a alguma vilinha, veja por favor o preço dos instrumentos do rock band e de um ipad.
Cordialmente,
O Abusado de Caco Barcellos ilustra bem essa situação.
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