terça-feira, 10 de maio de 2011

Cena da cidade

Um senhorzinho esguio, cabelos beeem grisalhos, japonês, aparentemente mudo, seus 60 e tantos, e com dificuldades para mexer os braços se aproxima do balcão de uma padaria na Alameda Barão de Limeira.

Com um dedo, indica um pão doce para a mocinha do balcão. Ela entende e se certifica:
- Esse?, fala, apontando para o pão doce e podre na prateleira.

Era tipo uma rosca, aqueles pães nevados com um gota de açucar ou sei lá o que na ponta, que tinha uma coloração amarelada estranha, mas estava lá, à venda.

O japinha balança a cabeça em um gesto que entende-se como um 'sim'.

Ela insiste:

- O senhor quer esse pão aqui? Esse?, repete já com o dedo a 2mm da pontinha da gotícula de açúcar amarelada.

Ele mexe todo o corpo para dizer que 'SIM, é aquele mesmo, PORRA!'

Ela aconselha:

- O senhor não quer escolher outro doce? Porque esse aqui não é de hoje, é de anteontem.

Ele se mexe mas não consegue se explicar se quer o doce de anteontem ou um mais novinho e menos amarelado feito no dia.

A mulher, sem saber que a cena era assistida por mim, apoia o cotovelo na prateleira, leva a mão à cabeça, segura a testa com as pontas dos dedos, olha para a palma da própria mão à frente do seu nariz e faz uma confissão baixinho:

- Ai, eu tenho medo de ele comer esse pão e ele estar estragado. Vai que o velho adoece por minha causa...

O velho nunca mais foi visto na padaria desde então.

2 comentários:

berna beat disse...

os doces da padaria madema, à rua josé getúlio, tb têm esse... charme

RC disse...

Bons tempos aqueles em que os doces de padaria tinham cara de velhos... Hoje eles só têm cara de plástico.