Com um dedo, indica um pão doce para a mocinha do balcão. Ela entende e se certifica:
- Esse?, fala, apontando para o pão doce e podre na prateleira.
Era tipo uma rosca, aqueles pães nevados com um gota de açucar ou sei lá o que na ponta, que tinha uma coloração amarelada estranha, mas estava lá, à venda.
O japinha balança a cabeça em um gesto que entende-se como um 'sim'.
Ela insiste:
- O senhor quer esse pão aqui? Esse?, repete já com o dedo a 2mm da pontinha da gotícula de açúcar amarelada.
Ele mexe todo o corpo para dizer que 'SIM, é aquele mesmo, PORRA!'
Ela aconselha:
- O senhor não quer escolher outro doce? Porque esse aqui não é de hoje, é de anteontem.
Ele se mexe mas não consegue se explicar se quer o doce de anteontem ou um mais novinho e menos amarelado feito no dia.
A mulher, sem saber que a cena era assistida por mim, apoia o cotovelo na prateleira, leva a mão à cabeça, segura a testa com as pontas dos dedos, olha para a palma da própria mão à frente do seu nariz e faz uma confissão baixinho:
- Ai, eu tenho medo de ele comer esse pão e ele estar estragado. Vai que o velho adoece por minha causa...
O velho nunca mais foi visto na padaria desde então.
2 comentários:
os doces da padaria madema, à rua josé getúlio, tb têm esse... charme
Bons tempos aqueles em que os doces de padaria tinham cara de velhos... Hoje eles só têm cara de plástico.
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