Foi lá por fevereiro ou março. A firma estava fazendo um censo com seus funcionários. Queria saber, nome, idade, sexo, signo, idade dos bisavôs, time do coração (eu sou o único aficionado do Treze na companhia, líder nacional em seu segmento), cueca box ou samba-canção, cor preferida e, finalmente, 'especialidade'.
A pergunta sobre especialidade veio em um email separado. Da seguinte maneira:
Você é especialista em algum tema?
“Jornada nas Estrelas”? Bebop? Literatura africana?
Lutas de Vale Tudo? Cultura japonesa? RPG? Tatuagem?
Bonsai? Cerâmica?
Estuda algum assunto por conta própria?
Especializou-se em alguma área?
Por favor, preencha a ficha que está neste link da intranet:
O objetivo da seção é que outros colegas possam, se necessário, esclarecer dúvidas ou pedir sugestões aos colegas sobre os assuntos que eles dominam.
Ah essa é fácil, pensei no primeiro momento.
Posso dizer que sou especialista em...em....a ver...éééé...futebol!
Sei a escalação do Botafogo da Parahyba de 1996, quando comecei minha carreira (Cláudio; Betão, Washington Luiz, Alfredo e Lúcio...). Tenho na ponta da língua a campanha e os gols Brasil na Copa de 1958 e sei a numeração dos jogadores da seleção brasileira campeã mundial em 1994. Tá, mas tudo isso é resolvido com um wikipedia ou qualquer desocupado pode responder.
Ademais, eu trabalho com esporte, não diretamente com futebol, mas com esportes. Tenho para mim, também, que ao afirmar ser especialista em um assunto sobre o qual sou pago para escrever é uma confissão de alienação. Porque, nas folgas, em vez de me desligar do trabalho, eu ainda fico bitolado em um assunto que passei a semana inteira tratando.
Sem contar que o que produzo sobre futebol não sai da minha cabeça, mas das dos entrevistados. Portanto, eu preciso da especialidade deles para produzir meu material. Excluí o futebol da minha lista de especialidades. Ainda que continue sendo minha principal diversão.
Entendi a pergunta da firma como 'o que você consome como informação quando não é obrigado a utiliza-la profissionalmente?'.
Meu pai, por exemplo, toca violão de três braços. O único no mundo, diz ele. Minha mãe costura e cozinha. Um maluco, no questionário da empresa, disse que entende tudo de 'boca do lixo'. Um outro, de 'neo-sertanejo'. Houve gente que respondesse 'modernismo brasileiro nas artes plásticas', ou simplesmente 'Roberto Carlos - repertório'.
Bom, eu gosto de new journalism. Li um sem número de livros desse estilo, mas não significa dizer que eu sou especialista no tema. O fato de saber o nome dos livros, citar trechos e elencar os melhores, não me dá a condição de entendedor do assunto.
Tenho muito interesse na história de Brasília. Sei lendas sobre a construção, relatos impressionantes sobre os primeiros dias de existência da capital federal, estórias de antanho, características do clima, sotaque e por ai vai...Mas sáo fiapos de histórias que juntas, conseguem sustentar não mais que 10 ou 15 minutos sobre o tema.
Assim, está cortada da lista.
Pensei em colocar lá que entendo e identifico sotaques. Conseguia, até pouco tempo atrás, distinguir só pelo jeito de falar e as expressões idiomáticas se o camarada era do Rio Grande do Norte ou de Alagoas. De Picos ou de São José da Lagoa Tapada. Mas como estou há quase uma década distante do contato direto com o Nordeste, perdi a sensibilidade. Aliás, o fato de saber de onde é o sotaque nordestino também não me dá a condição de especialista. Só de curioso mesmo.
Passei a apreciar cervejas europeias e artesanais brasileiras. Sei como se faz, mas não sei os nomes e nem muito menos consigo descrever o sabor de cada uma delas. Logo, esta especialidade não existe.
Bueno, pensei, também não posso dizer que sou especialista em blogs. Não sou. Já tive três blogs. Ainda os tenho, Um está à deriva no espaço cibernético dos blogs, o outro eu acompanho como expectador. Este eu mantenho a duras penas como meu 'hábito mais saudável'. Mas ele so trata de mim mesmo. Não escrevo sobre a iminente moratória norte-americana nem sobre genealogia da família paraibana. Só se trata de mim, é um caso explícito de 'Eu me amo', como já disse neste post.
Poderia ter respondido na firma que sou especialista em mim mesmo.
Pensando bem, nem isso eu acho que sou capaz de garantir...
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