Demorei nada menos que 70 dias para terminar de ler um livro de 293 páginas com fonte tamanho 14. É como seu eu tivesse lido quatro páginas por dia. E a média foi essa mesmo. Abri o livro todos os dias e não consegui passar da quarta página diária. Tanto que ontem, quando o finalizei, era a terceira página que dava uma passada de olhos no dia.
O atraso deveu-se aos Jogos Olímpicos e à colcha de retalhos de informações que me deixou agoniado com o texto.
O negócio é o seguinte: quando eu leio um livro, eu não faço uma leitura linear, linha por linh, sem parar, emendando os parágrafos e me empolgando com o enredo.
Eu páro.
Volto.
Analiso onde a informação X se encontra com a informação Y, e o que foi usado pelo autor para ligar os dois trechos.
Demoro uns oito minutos por página.
Esqueço até mesmo do conteúdo do texto e não consigo desconstruir sua estrutura. É complicado.
Por isso, só consigo me concentrar na leitura com silêncio. Ou quando o texto é de Gay Talese, daí eu entro na história e passo uns três dias dentro dela como se fosse o protagonista. Não consigo esquecer a história do casal Bullaro na California da decada de 1960, em A Mulher do Próximo.
Bueno, o Príncipe Maldito relata a derrocada da monarquia e a ascenção da República no Brasil. Como Dom Pedro II deixou de assumir o trono no final do século XIX. Mary Del Priore, a autora, teve que se desdobrar para narrar a História (com H maiúsculo) toda com tempero romancista, já que está nítido que ela fez tudo baseado em recortes de jornais, diários da família imperial, e cartas de terceiros. Até porque, não dava mais tempo de entrevistar nenhuma testemunha dos fatos...
Imagino o tanto de papel antigo que ela não tinha na mão para enfileirar em ordem crescente e contar a história!
Eu lia e ficava apreensivo com os detalhes, como quando Pedro Augusto Saxe e Coburgo, neto de Dom Pedro II, saiu para cavalgar na manhã de 15 de novembro de 1889. Ele cumprimentou as pessoas apenas com um gesto da cabeça, colocou uma capa porque caía uma garoa fina e fria sobre Petrópolis e voltou para casa tranqüilamente até ouvir do mordomo-real que Deodoro da Fonseca depusera os ministros, no Rio de Janeiro.
Enxerguei algumas belas lições no livro. Primeira delas:
No Brasil, o que importa são as pessoas e não os projetos.
Sim, porque Deodoro não cercou o quartel do Rio de Janeiro para proclamar a República. Ele simplesmente ouviu dizer, pelos jornais, que seria preso por um motivo qualquer lá e foi tirar satisfação. Inclusive, antes de entrar para conversar com o Barão de Ouro Preto, tipo um "ministro-chefe da casa civil" da época, teria gritado "Vida longa ao rei".
Mas Pedro II tava velho e já tinha determinado o dia em que abdicaria do trono. Quando viu alguém disposto e com a mão na massa, como Deodoro (aliás, mais velho que o imperador), ele simplesmente entregou o Brasil. Se arrependeu depois. Mas morreu antes de restaurar a monarquia.
Deodoro não sabia nem o que fazer com o cargo, mas proclamou a República mesmo assim. Depois que repassou o poder a Floriano Peixoto [que não tem nada a ver com Florianópolis, apesar da homenagem], chorou por ter derrubado Dom Pedro.
Se Pedro Augusto assumisse a coroa - ele disputava com a Princesa Isabel -, também não tinha idéia alguma. Nem a Princesa. Queriam a boa vida do imperador.
Ela, a propósito, só aboliu a escravatura pelo gesto político e não humano. Mas aí veio aquela história que a gente aprendeu na quinta série (eu aprendi mesmo, porque reprovei a quinta em 1992 e quase em 1993), o Brasil não tinha mais ninguém para fazer o trabalho pesado. Então os escravos permaneceram assim, porque as fazendas estavam abarrotadas de mato crescendo para todos os lados.
A outra lição é a da malandragem intrisicada no povo brasileiro. Daí surgiu o oportunismo generalizado, que, por sua vez, tornou a corrupção mais que previsível por aqui. Até compreensível. Para a maioria...
Agora que acabei o maldito príncipe, já tô dando um gás em Invasão de Campo, de Barbara Smith. Outro livro de história, desta vez sobre os irmãos Dassler, Adolf e Rudolf, que fundaram a Adidas e criaram o marketing esportivo. Como estou numa jornada de 15 dias de folga em Recife, acho que dá para matar nesse tempo. Com muita boa vontade...
Eu ainda continuo atrás de A Luta, de Norman Mailer!
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Um comentário:
Muito bom comentário sobre o livro!
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