Dando uma pausa nessa idéia vagabunda de dar títulos kafkianos (Farsa, Motorista, Souza, Turistas...) para fazer mais um testemunho sobre o déficit de atenção.
Levando em consideração que eu acredito que TODAS as conversas do mundo me interessam, umas mais, outras quase nada, me considero um especialista em roubar o o diálogo alheio.
Roubar no sentido de meter o ouvido no meio. Sem que ninguém percebe, a não ser a pessoa que está conversando comigo.
Sim, porque daí perco toda atenção do que estou falandou ou ouvindo e passo a viajar no papo dos outros.
É uma coisa tão maluca que me lembro da primeira vez que me toquei dos perigos dessa curiosidade inexplicável.
Estava com meus pais no interior de Goiás, numa daquelas cidades que tem cachoeira e/ou água quente e tal e, no café da manhã, puxei o ouvido para a mesa vizinha.
Era uma família de quatro pessoas. O pai, desolado, ao lado da mãe, nervosa por causa de uma das filhas, que aparentava ter uns oito anos e ficava repetindo palavrão:
- Car*lho, b*ceta, p*ta que pariu...
A irmãzinha mais nova não estava se tocando do que estava rolando. A mãe queria saber a qualquer custo onde a menina tinha aprendido aquilo, enquanto o pai chorava a perda da inocência da filha.
Nisso, a galera da minha mesa fazia planos de cachoeiras a visitar e todos aqueles bla bla blas...Tava claro que o clima na minha mesa era muito melhor, mas não conseguia desgrudar a atenção do que rolava ao lado.
A gente foi para a cachoeira e a outra família deve ter voltado direto para um psicólogo.
Desde então, aperfeiçoei a tática e a arte de perder a concentração se desenvolveu tanto que interfere até no meu trabalho.
Quando faço uma entrevista pelo telefone, sempre perco uns dois ou três minutos desligado do papo porque fico aa procura de alguma conversa paralela que possa me interessar. Eu simplesmente me desligo do que estou ouvindo e direciono a atenção para outro lado. Sempre.
Interfere também no blog. Só consigo atualizá-lo sozinho, em casa, sem nada para fazer. Já tentei fazer no sirviço, mas começo a ouvir a conversa alheia. Mas já criei um antídoto que é fazer uma seqüência de duas ou três perguntas de respostas óbvias para poder desviar a atenção sem prejuízos.
É como se, a qualquer momento, pudesse surgir uma informação imperdível e eu perdesse a oportunidade de sabê-la porque estava fazendo algo menos interessante. Como se as minhas conversas nunca fossem tão acrescentadoras quanto aas paralelas. Na minha situação atual, lá por aquelas bandas, pode se encaixar muito bem como um mecanismo de defesa. Mas normalmente a coisa é mais simples, é só para saber o que rola na vida dos outros.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
Normal: apenas necessidade de se manter bem informado...
eu tb tenho esse hábito. mas dificilmente perco a concentração na conversa principal.
minha namorada mesmo sempre se assusta como eu consigo conversar com ela e saber tudo que está acontecendo na vida das pessoas ao redor...
Não gosto quando estou em algum lugar e acontece de alguém ficar falando no celular, tbém começo a prestar atenção na conversa, nem escuto o que estão me falando.
bjo
Postar um comentário