quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Dark blue eyes

Toda vez que eu olho para aquela mulher eu me lembro de uma notícia que li dia desses.

Acho que foi no Correio: "Todas as pessoas de olhos azuis descendem de uma só pessoa".

Algum galeguinho apareceu com olho azul no mundo. Emancebou-se por aí, pelo meio do mundo, e daí espalhou a coloração. Isso foi há mais de cinco mil anos. Sei lá quando.

Bom, independentemente do tempo, aquela mulher veio daquele galeguinho. De uma maneira ou de outra.

Só não se sabe como foi parar na Barra Funda.

Lá na estação tem uma espécie de ala b, para pegar ônibus fretados. É um dos lugares menos barulhentos da Barra Funda, com movimentação bem abaixo da média, de gente e veículos. É lá onde eu pego, todos os dias, um fretadão.

Em toda ala b existem apenas três banquinhos. Seriam quatro, mas arrancaram um. O outro está manco, mas tá lá. Ela sempre ocupa o manco.

Na verdade, ela dorme lá.

É assim: ela coloca uma bolsa preta sobre as pernas e, acima da bolsa, apóia o tronco e a cabeça. Essa, aliás, é coberta por um capuz de lã, não importa se está calor ou frio.

A tal da senhora fica toda dobrada no banquinho.

Atrás, do outro lado da grade, os trens metropolitanos parecem cantiga de ninar com o rangido de ferro no ferro ao pé do ouvido. A fumaça dos ônibus parece funcionar como purificador de ar. Às vezes, a mulher parece até que tá morta, porque não se mexe.

Os pés sempre ficam protegidos por uma melissinha azul-bebê. Quando elas se balançam, é porque a mulher está acordada. É o equivalente a ficar fritando na cama. Ela permanece em posição de tapioca recheada, mas balançando os pézinhos.

Ela nunca me viu. Eu só a vi frente-a-frente uma vez. E foi na volta do trabalho, umas nove horas depois de tê-la visto chacoalhando a melissinha.

Foi por causa da melissinha que eu descobri que aquela mulher loira, com olheiras profundas e olhos beeeeeeeemmmm azuis eram realmente a mesma de quem sento-me ao lado no começo da tarde, antes de embarcar no fretado.

Ela chega ali à noite, espera o movimento diminuir e dorme.

Perdi as contas das vezes em que sentei ao seu lado (à tarde, enquanto dorme), fechei o livro e fiquei pensando em cutucar a mulher. Puxar assunto. Ela deve ter sido bonita quando era mais nova...e mais limpa. Mas eu queria saber o que ela faz ali e porque dorme daquele jeito.

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As casas bahia estão oferecendo transporte gratuito para a geração bolsa-família ir da estação (mais precisamente da ala b) até a loja mais perto.

Como a demanda é muito grande, eles organizaram a fila justo em frente ao banquinho manco da galega dos olhos azuis. A confusão na área está grande.

Culpa das casas bahia, nunca mais vi.

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Antes de chegar à ala b, preciso pegar um ônibus aqui na Pompéia. Para chegar à parada de ônibus, tenho que tomar cuidado para não pisar em cima de uma família de mendigos que dorme na porta da agência abandonada do Itaú, no meio da calçada enlameada.

Eles são cafusos. Nem negros, nem mulatos. Cafusos. Dormem enrolados em jornais. De dia, pedem esmola e/ou comida na porta do shopping e do McDonald's. Uma vez dei um sundae, outras muitas vezes, moedas, dia desses neguei-lhes pipoca. Não enche a barriga de ninguém. Mas nunca tive vontade de perguntar porque eles estavam ali.

Acho que é porque eles não têm olhos azuis.

2 comentários:

Gil de todos os dias disse...

Que bacana!! Pois a minha mãe e minha avó também vieram daquele galeguinho!!

Adoro observar pessoas em que geralmente ninguém presta atenção. Tenho um texto sobre um rapaz de boné na feirinha de Tambaú. Qualquer dia desses eu posto...

Elane disse...

Em Campina Grande, eu sempre quis conversar com "Biu do Violão". Figura engraçada, que vive cantando as músicas do Roberto Carlos... Morro de Vontade de saber onde ele mora, pq vive no Calçadão direto. Mas, nunca tive coragem de tentar um papo com ele.

Qualquer dia desses tento!

abraços e voltei aos coments.