Eu era um estudante de jornalismo e repórter de futebol da tv local. Morava sozinho em Campina Grande. A cama de madeira era uma extensão da gaveta de roupas e do cesto de roupas sujas.
Na ponta do colchão, já lá na cabeceira, uma caixa de lenços kleenex (eu tenho alergia ao clima úmido da região) e uma montanha de travesseiros.
Nunca soube quem comprava travesseiros lá em casa. Devia ser a minha mãe. Mas esse, em especial, tava com todo jeitão de ter sido uma aquisição do meu pai. Fora ele quem escolhera a cama, a persiana, a cômoda e a divisória para aquele apezinho fantástico, de 50 metros quadrados, que eu pagava incríveis R$ 170.
Sim, porque se dependesse de mim, eu passaria minha vida morando num vão, sem divisória, sem geladeira, sem cama, sem cortina...
Deve ter sido meu pai que comprou esse travesseiro poque ele era bem diferente dos que tinha na minha casa, em João Pessoa.
Era um travesseiro tipicamente campinense: sem luxo algum, sem pluma de gansos sortidos da região dos Grandes Lagos, sem cobertura especial anti-ácaro, sem formato anatômico para o pescoço.
Sei que ele foi parar lá na minha cama. Deitar a cabeça todas as noites ali era estranhamente agradável, porque ele era composto por um espécie de aglomerado de espumas, como aqueles móveis vagabundos, de madeira aglomerada, de repartição pública abandonada (redundância!?). Era quase como dormir com a cabeça apoiada num pedaço de borracha vulcanizada.
Mudança vai, mudança vem. Saí de Campina Grande em novembro de 2002, voltei para João Pessoa, segui para o Canadá e de lá para Brasília, em junho de 2003.
Só quando a poeira dessa fase de transição assentou eu perecebi que o tal do travesseiro estava lá de novo, na minha cama.
Aquele viga de aço virtualmente acolchoado rodou o Brasil e conseguiu chegar aa minha cama na Asa Norte. Foi só aí que eu comecei a prestar a atenção nele.
E a gente criou essa relação de amizade. Todas as manhãs, ao acordar, 'quebro' o pescoço para os lados para ouvir o estralo causado pela (falta de) maciez e conforto que o travesseiro me proporciona durante o sono.
É um leve incômodo imprescindível para cada manhã.
Meus pais foram embora para Recife, eu fiquei em Brasília, isso já em 2007, e o travesseiro me acompanhou. Desta vez, eu mesmo pesquei o companheiro de dentro do caminhão de mudança que rumava de volta para o Nordeste.
Um ano depois, ele entrou em outro caminhão de mudança e veio aportar aqui em São Paulo.
Entre a acaso e o proposital, meu travesseiro campinense tem aguentado (tenho até 2012 para me acostumar aa ausência da trema. Até lá, vou mesclando os estilos) firmemente à vida de andarilho.
Ele perdeu a eficiência com o passar dos anos. Também pudera, qual é o travesseiro que agüenta (eu disse até 2012) nove, dez anos de noites pesadas?
As dores no pescoço tem aumentado. Os estralos são cada vez maiores. Quase que causando problemas físicos.
Deixou de ter aquele jeito de azedinho-doce. O amargo está suplantando o doce.
Tem sido muito menos agradável e está sendo cada vez mais escanteado. É muito mais um apoio para as pernas do que para a cabeça. Essa repousa em travesseiros mais novos e cheios de amor para dar.
Enquanto isso, na outra extremidade da cama, o travesseiro campinense perde o formato original, justamente por não estar em sua função original. Hoje ele parece mais com um tablete de caramelo esquecido e amassado no fundo da mochila de uma criança.
Apesar de todo apreço e ligação histórica, o futuro do travesseiro campinense é incerto.
8 comentários:
viga virtualmente acolchoada, borracha vulcanizada, madeira aglomerada, azedinho-doce...quanta definição para um travesseiro só!
faltaram duas coisas, anonimo:
- "tablete de caramelo amassado".
- e seu nome!
eu tneho um edredon com o qual tneho a mesma relação. tá certo que nunca me mudei, mas a cada compra de novo enxoval para as camas lá de casa, não me desfaço dele.
não me lembro de nenhum outro cobertor q tenha tido na vida. só ele, verde de um lado, azul do outro.
Caixa de lenços kleenex na cabeceira da cama por conta de alergia é? Sei...
Sem mais para o momento
Gosto de roupas de cama velha. Só troco as minhas quando tem visita.
bjos
Eu uso um travesseiro se é que se pode chamar assim desde que nasci. Antes dormia em cima dele, hoje escosto a cabeça. Também não sei se é um mito. Conto a história que me contaram que é o mesmo travesseiro. Como não lembro (desde que me entendo por gente) de ter comprado um travesseiro acho que é o mesmo desde que nasci.
Daniel,
Em primeiro lugar, muito bom mesmo esse texto, hein?? Falar de coisas fortuitas mas cheias de significado não é fácil, entretanto, sempre que alguém acerta, fica muito bom mesmo. E você acertou;
Segundo, você não falou do cheiro desse travesseiro... Lavava? Inclusive a espuma???? Será???
(Vale pro Léo também).
Abração
cara, eu nao sei bem como esse travesseiro sobreviveu. nao sei dizer ja foi lavado. eve ter sido, nao eh possivel, ne?
cheiro? acho que eh o mesmo cheiro de sempre...de ácaro!
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