segunda-feira, 14 de julho de 2008

Caminhada nas Perdizes

Existem bairros legais em São Paulo.

Perdizes é um bairro legal.

Ele se configura entre a prepotência e a ostentação de Jardins, Higienópolis e afins, e a precariedade e violência da Zona Leste.

Perdizes está bem no meio disso aí. É um poucos lugares em que a especulação imobiliária ainda é incipiente. A "força da grana que ergue e destrói coisas belas" não pode ser cantado por aqui de peito aberto. Ainda...

Entre um prédio e outro há vilinhas de casas geminadas, botecos de esquina com abacaxis pendurados, portinholas transformadas em comércio familiar e por aí vai. Dizem que por aqui rolavam várias codornas e perdizes e há 50 anos proibiram a caça. Fizeram até a Igreja de Nossa Senhora das Perdizes para pedir perdão aos animais sacrificados e transformados em galetos.

A melhor maneira de conhecer Perdizes é a pé mesmo.

Já cruzei este bairro milhares de vezes de carro, aprendi mais ou menos os nomes das ruas, suas travessas e transversais. No fundo eu queria fazer todas as minha obrigações aqui pela redondeza.

Por isso, aproveitei o dia de folga para procurar um barbeiro.

Tenho preguiça de cortar o cabelo. Mas gosto de dar um trato na careca em barbearia. Não tolero aquele cheiro de peido abafado em toalhas úmidas dos salões de "cabeleireiro unissex". O pior corte de cabelo da minha vida foi aqui na Pompéia, uma espécie de sub-bairro de Perdizes, em que a mulher me deixou com rabicó e tufos para todo lado.

Daí improvisei nos últimos meses em Helena Hair, uma "cabeleireira unissex" instalada na garagem ao lado de uma oficina mecânica. Semana passada, para minha surpresa, Helena estava com as portas cerradas. E continuou por hoje. Acho que a prefeitura descobriu a pilantragem.

Bueno, saí a caminhar pelos morrotes de Perdizes e nada de encontrar um salão ou barbeiro. Desde o começo de maio não corto o cabelo.

Entrei pela Cotoxó, virei na Padre Chico, subi a Tucuna, para depois pegar a Caraíba e lá na freente a Diana. Encontrei nada menos que quatro clínicas de aromaterapia, três "lojas" de conserto de sofás, duas distribuidora de água, sete pet shops. Um salão fechado. Dois spas urbanos, só para mulheres.

O post já estava pronto na minha cabeça. "Tem mais salão para cachorro em Perdizes do que para gente".

Láááá em cima, no cruzamento da Tavares Bastos com a Caraíbas, em frente a um prédio em cosntrução, com um arvorezinha de meia altura em frente, no pé da subida, uma barbearia. Das mais tradicionais.

Um velhote, que veio de Minas e seu auxiliar, Adriano, roqueiro, com jeito de filho do velhote, cara de quem tem uns 29 anos, amigo de toda vizinhança, porque a cada minuto passava um conhecido para cumprimentá-los. Ao som de um bolero. Eles cobram 18 contos de réis pelo corte.
"Baixa tudo com a tesoura. Na altura da máquina 1".

Está lá.

Um comentário:

Felipe disse...

Hãrãããlho!!! Mas você tem cabelo pra cortar? Como assim?

Não conheço perdizes. Acho que uma tia minha morou aí a vida toda, mas só fui aí uma vez, em 1983, quando tinha longíquos seis anos de idade.

Gostei do texto. Tá urbanamente bucólico e simplista. Muito bom.

Atenciosamente,