terça-feira, 2 de outubro de 2007

Conversando com um brasiliense

Entre outras coisas, o povo de Brasília -- aquelas pessoas que nasceram e se criaram nas quadras do Plano Piloto e não dependem de cargo público -- é conhecido como fechado.

Lembro-me de um paraibano que morava por aqui e me disse o seguinte:

- Eu sou amigo do pessoal no trabalho, mas pensa que eles me chamam para sair?

É cada um na sua.

Como passei minha infância/pré-adolescência por aqui, não tive a mesma dificuldade quando retornei, há quatro anos. Mas percebi traços mais destacados na cultura do brasiliense, se é que existe uma cultura consolidade nesta cidade.

- Primeiro de tudo: metade da cidade gosta de rock, a outra metade de música baiana.

- Quer forçar uma amizade? Chame para o Poço Azul, Itiquira ou até mesmo a Chapada dos Veadeiros. Brasiliense se amarra em "cachú".

- Para iniciar um papo descontraído e quebrar o gelo, fale do clima. Tá seco demais, quando vai começar a chover, a grama tá queimada, como tá a umidade relativa do ar... Não conheço nenhum lugar neste país onde as pessoas se preocupam com a umidade do ar. Só em Brasília.
Aliás, hoje a umidade deu uma melhorada, porque choveu ontem aa noite.

-Futebol, cerveja, mulher, claro, estão em todas as conversas aqui e em todo lugar do Brasil.

- Top of the list: nada (eu disse N-A-D-A) interessa mais a um brasiliense na minha faixa etária do que comentar sobre apartamentos.

Não sei se é porque Brasília está sempre em mudança, com uma população flutuante, gente nova que chega e sai a cada ciclo eleitoral, mas o povo desta cidade adora falar de casa. Principalmente ser for nova.

O papo vai sempre pelo mesmo caminho
- Tô a fim de comprar um apê no Sudoeste, mas é muito caro.
- Já procurou no Sudoeste Econômico?
- Eu vi uns que estão construindo em Águas Claras.
- O problema de lá é o trânsito.
- Igual aaquelas kits no Lago Norte.
- Mas elas estão valorizando.
- Se tu quer comprar apartamento agora, espera lançar o Setor Noroeste, vai valorizar demais...

Geralmente, a conversa entra por aquele caminho de preço do metro quadrado, financiamento, parcelas, valor das intermediárias bla bla bla.

Mas se você tem um amigo brasiliense mesmo, legítimo, nascido e criado aqui, e for mudar de apartamento, pode chamá-lo para dar aquela ajudinha.

Brasiliense é sempre solidário na mudança...

3 comentários:

Felipe disse...

Algumas coisas:

1) Esse negócio de chegar na cidade e o povo não ser receptivo (ou ser) não tem a ver com ser brasiliense. É algo que acontece em qualquer cidade para onde você se muda já numa idade mais velha e não tem referÊncia por lá. Fica à mercê dos seus colegas de trabalho. Se eles forem legais, a cidade inteira vai ser taxada como receptiva. Caso contrário, se eles forem nas deles, a cidade é rotulada como fria. Nada a ver.

2) O fato de você ouvir alguns desses assuntos corriqueiramente está mais relacionado À idade e às coisas que afetam as vidas das pessoas da sua idade. Principalmente o lance do apartamento. Já já, vc estará experte (como eu estou) em dizer as razões que levam as pessoas a, num período de cinco a dez anos, mudarem completamente suas visões sobre "fazer concurso" e virar funcionário público. Isso é outro tema corriqueiro.

3) De fato, neguinho fala muito sobre o clima aqui. É impressionante. Normalmente, isso indica falta de assunto em uma conversa. Mas acho que aqui nem é o caso. O clima afeta a vida das pessoas de tal forma aqui que é impossível negar que um calor desgraçado, 122 dias sem chuva e umidade 11% não são fatos marcantes na vida cotidiana.

Anônimo disse...

Enquanto o mineiro só é solidário no câncer, o brasiliense sempre ajuda nas mudanças! Taí uma verdade sobre a terra do nunca.

abs

Ana Clara disse...

Ah... muito bom. Eu, brasiliense, nunca sequer cheguei perto da Chapada. Mesmo assim, melhor descrição impossível =)