sábado, 20 de outubro de 2007

Pesadelo escolar

Um dia, minha tia Roberta mandou um email para todos os sobrinhos perguntando como cada um estava. Eis a minha humilde resposta, abaixo:

Oi Roberta,

foi muito oportuno teu email. Preciso contar para alguém as coisas estranhas que têm acontecido comigo aqui em Brasília. Principalmente no meu ambiente de trabalho.

Com um freqüência irritante, tenho cruzado com o professor Marcos, que me deu aula de química no 1º ano no Marista, nos corredores do Correio Braziliense. A última vez que o vi foi em 1997 e ele continua aparentando estar na casa dos 30 anos, com aqueles mesmos tufos de cabelos grisalhos acima das orelhas.

No primeiro andar do prédio do Correio Braziliense, à esquerda das escadas, existe uma grande sala onde fica a redação. Mas sempre que vejo o professor Marcos no prédio, a redação me parece muito menor e o tradicional cheiro de papel de jornal é substituído pelo de cartolinas novas recheadas de desenhos com giz de cera e papel celofane.

Em vez do meu computador, no lugar onde costumo produzir minhas reportagens, está uma carteira. Daquelas de colégio, com espaço para colocar os livros didáticos e cadernos embaixo da mesa. Do jeito que está, a redação não tem espaço para os 180 jornalistas que trabalham comigo habitualmente.

Cabem, no máximo, 40 pessoas - corrigindo, 40 adolescentes. E eu, careca, barriga levemente destacada, sentado, atônito, entre os adolescentes, com cara de paisagem diante das explicações do professor Marcos sobre a importância dos prótons no Diagrama de Pauli!!!!!

Depois de 50 minutos intermináveis, ele sai da redação e entra Genildo, ex-professor de física também no Marista. Eu não entendo absolutamente nada da explicação de genildo - que me garantiu ter jogado bola com meu pai em Jaguaribe - e muito menos dessa situação em plena redação do Correio Braziliense!

Procuro por José Cruz, que senta ao meu lado e é meu chefe. Ao olhar para esquerda, contudo, vejo Daniella.

Minha ex-namorada de 10 anos atrás em Brasília!!!!!!!!!!!!!!
Tento me esconder atrás da mochila para não ter que conversar com ela.

Depois de Genildo, entra a professora Dulce. Ela mesmo. Aquela que manchou meu humilde histórico escolar ao me reprovar em artes na 5ª série no Sigma. Percebi que nem precisava me esconder de Daniella, porque, como já se sabe, ela nunca foi de querer conversar comigo mesmo.

No auge do desespero, tento sair correndo da redação, mas Tia Dulce me impede. Além de me humilhar perante meus coleguinhas de colégio, exige minha agenda para fazer mais uma reclamãção por escrito aos meus pais.

Só não fico mais atormentado porque meu despertador toca. Acordo todo suado na minha cama de molas quebradas, na quitinete entre o Sudoeste e a Octogonal, aqui em Brasília. Já é meio-dia, hora de acordar, preparar meu tradicional almoço de batatas-assadas-e-carnes-temperados-com-alho-e-cebola e ir trabalhar. É no Correio Braziliense que pretendo passar os próximos 10 anos de minha carreira de repórter (a não ser que o New York Times me descubra antes).

Antes de dormir, à noite, depois de um dia normal de trabalho, tento antecipar se vou ter outro pesadelo escolar. Como ainda não consigo prever os sonhos, penso que meu futuro pode ser como professor. Não precisa ser de 2º grau ou de artes. Professor de jornalismo, talvez.

Quem sabe assim eu possa pagar os pecados cometidos por ser um péssimo aluno. Ou um professor melhor do que foram Marcos, Genildo, Dulce e muitos outros que repousam no meu hipotálamo, prontos para invadir mais um sonho.

Beijos

Daniel Brito

Um comentário:

Pereira disse...

Por acaso, caí no seu blog, porque me lembrei da bruxa vagabunda chamada Dulce, que quase me reprovou em artes/geometria (?).
Tem coisas que não se esquece. Juro que gostaria de fazê-la não se esquecer de mim. Porém, o que mais queria que ela não esquecesse é a sua mediocridade.
Não tenho pesadelos com ela, mas, infelizmente, nutro a vontade de encontrá-la, justamente para ter o prazer de xingá-la.