Ninguém entendia mais de computador em Itaporanga do que eu. Ficava trancado o dia todinho na Lan House aprendendo os caminhos do computador.
Meu pai e minha mãe ficavam me aperriando e decidi que iria me livrar deles. Isso só aconteceu no dia que mãe não me deu dinheiro para entrar na internet. Vendi minha moto e sai de casa de madrugada.
Quando ela foi me procurar na Lan House, já estava no ônibus descendo para Brasília. Sei lá, sempre achei que Brasília fosse um lugar que pudesse me dar dinheiro para viver de computador. Para o povo de Itaporanga, quem mexe com computador não tem futuro na vida, não é brincadeira um negócio desses?
Ninguém que ficou lá sabe que estou aqui agora.
Com três mil reais no bolso, comprei um jornal e fiquei hospedado em uma pousada naquela avenida dos ônibus, perto do shopping. Pelas minhas contas, se saísse rápido daquela pousada, poderia viver desempregado por exatamente um ano. Era só gastasse tipo uns R$ 250 por mês.
Mas eu sou esperto de mais. Encontrei um lugarzinho legal num bairro chamado P Sul, onde pago hoje R$ 160 a cada 30 dias. Dei um giro pelos shoppings, lan houses, cyber café da cidade inteira e não consegui emprego.
Um maluco, vizinho meu, me viu lendo os classificados de emprego e perguntou com que eu trabalhava. Por coincidência, ele montava peça de computador na Asa Norte e me chamou para ajudá-lo. Era uma terça-feira, quando ele me disse que tinha que montar 44 máquinas em 48 horas.
Emendei das 15h de terça até 18h de quarta-feira. A grana da moto, que já tava indo pelo ralo mais rápido que eu calculava, recebeu um reforço de R$ 300 pela montagem dos computadores. Só em um dia, hein?
Nunca vi tanto dinheiro na vida...
Volto aqui na Quadra todos os dias. Do mesmo jeito que o dinheiro vem aos montes, ele sai do meu bolso mais rápido ainda. Eu vivia feito um rei em Itaporanga com R$ 180. Pagava até bebida para os amigos.
Tem dia que volto de carona, porque não consegui serviço. Mas dias como hoje, que já montei umas máquinas, consertei uns computadores dos clientes, como o senhor que tá aqui agora, pago o ônibus de volta, a janta no Giraffas e ainda guardo o restinho. Não vou ficar nessa para sempre.
Tô juntando grana para ir para São Paulo. Encontrei meu ex-cunhado no Orkut e ele me disse que tá ganhando 600 reais por mês.
Quanto mais longe de Itaporanga eu estiver, melhor!
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