Desde que me entendo por gente, sempre quis ser radialista. Na adolescência, fui seminarista por dois anos, mas queria ser locutor.
Meus primeiros trabalhos foram de madrugada, numa rádio pirata. Gostavam da minha voz.
Era bonita, diziam.
Na base do boca-a-boca, minha fama cresceu e virei famoso na cidade.
Mas famoso mesmo.
Mudei de emissora.
As pessoas queriam falar comigo no meio da rua. Me ouviam e queriam saber se minha aparência física casava com a voz do rádio.
Comecei a falar sobre política. O dono do posto de gasolina me procurou e perguntou se eu não queria ser vereador. Aceitei na hora. Sabe quanto ganha um vereador lá na minha cidade?
Milequinhetos reais. Fora as verbinha que ninguém vê, né?!?!?!
O dono do posto, que já era rico, ficou mais rico ainda quando virou prefeito. Por causa dele, me filiei ao PMDB, me elegi duas vezes. Ele também. Na terceira tentativa, fiquei como primeiro suplente, mas logo assumi o cargo.
Como o pessoal todo me conhecia, ganhei o apoio para ser presidente da Câmara de Vereadores. Sabe para quanto foi o meu salário?
Três mil reais, meu amigo!
Aí o sucesso me subiu à cabeça. Comecei a beber, arrumei rapariga em toda esquina. Minha mulher e meus três meninos pequenos me torravam a paciência, mas fazer o quê. Eu era muito popular.
Mandei construir duas quadras poliesportivas na cidade. Tinha até tabela de basquete. Arrumei uma parceria com o Cruzeiro, que montou uma escolinha oficial na cidade.
Nunca pensei que isso fosse acabar. Era festa, bebida, mulher, o povo vindo falar comigo. Comprei duas motos. Quitei a casa para mulher não me encher o saco.
Até a eleição de 2004...
Tive 244 votos. Não me reelegi por um. Tenho duas suspeitas:
- Foi o dono do posto, que não se reelegeu prefeito, mas continua rico, sem ajudar a ninguém lá;
- Foi minha mulher, que descobriu que eu tive um filho bastardo, com uma rapariga véia numa das festanças que eu dei. Isso foi durante a campanha. Após a derrota, ela me largou!
Fiquei doente. O povo lá dizia que eu não servia mais para nada. É que eles não sabem o que é depressão. Eles chamam de doença mesmo. Quanto mais triste eu ficava, mais cachaça tomava.
Pedi ajuda aos irmãos, aos amigos. Mas cadê eles nessa hora?
Vim ao Vale do Amanhecer falar com meu irmão mais velho. Ele é todo cheio desses negócios, sabe, de espiritismo, esoterismo, sei la o que danado é isso. A gente brigou com dois dias que eu estava na casa dele.
Dormi dois dias seguintes na rodoviária do Plano Piloto. Lembrei-me que havia esquecido o celular lá. Podia ligar para o deputado lá da região para pedir um emprego. Voltei ao Vale do Amanhecer e peguei o telefone quando meu irmão não estava.
De pouco adiantou, porque estava sem bateria. Mas Deus é bondoso demais comigo. Na volta, na parada de ônibus, uma coroa até gostosinha me viu agoniado, quase chorando e perguntou se eu não queria ajuda.
Fui até a casa dela. Comi bolo de fubá, tomei uma coca-cola. Começamos a namorar naquele dia mesmo. Se não tivesse ela, dormiria de novo na rodoviária. Foi ela quem me convenceu e a ir aos Alcóolicos Anônimos.
Os dois filhos dela, um de 26 e outro de 29, deram maior valor a mim quando fui ao Setor Comercial Sul na doida mesmo e arrumei o emprego de locutor de uma loja de calçados. Agora meu salário é de R$ 414 por mês.
Conheci os meninos de uma rádio pirata do Gama e falei que sempre quis ser locutor. Eles me chamaram para trabalhar num jogo do Gama. Quando estava cominhando pela aquela avenida monumental, antes de chegar ao Mané Garrincha, olhei para o Congresso, lááááá embaixo, me ajoelhei e dei graças a Deus por ter mudado minha vida.
Nem bebida queria mais. Quer dizer, querer, eu quero, mas não aceito assim fácil não, né?
Conheci o pessoal das melhores rádios de Brasília. Eles são fechadões. Igual ao pessoal dessa cidade, mesmo.
Pronto, quer um exemplo?
Quando entrava no ônibus para ir a Planaltina, saía acenando para todo mundo, mas ninguém respondia.
Um cara da rádio ZYZ1478 perguntou se eu não queria cobrir o time X Futebol Clube. O que eu vendesse de publicidade ficava para mim mesmo. Aceitei na hora.
Não vendi nada ainda. Continuo sobrevivendo com R$ 414, mas na hora que conseguir um patrocinador, saiu da casa daquela vagabunda. Ô coroa chata da p*rra.
Minha vida está mudando, ela nunca mais vai me jogar as coisas que me paga na cara. Minha vida está mudando.
Até Luiz Estevão eu já entrevistei...
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2 comentários:
Eu já não ia perguntar se você tinha sido vereador na Paraíba... heehhee.;... Gostei da estrutura do texto.
o que eu estava procurando, obrigado
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